Depredando o Orelhão

"Os protestos anticapitalistas dos anos 1960 (de Maio de 68 em Paris ao movimento estudantil da Alemanha e aos hippies dos EUA) remataram a crítica-padrão à exploração socioeconômica com os novos temas da crítica cultural: a alienação da vida cotidiana, a mercantilização do consumo, a inautenticidade da sociedade de massas, em que somos obrigados a "usar máscaras" e a nos submeter à opressão sexual, entre outras. Podemos entender agora por que tanta gente insiste que Che Guevara, um dos símbolos de 68, tornou-se “o ícone pós-moderno quintessencial”, que significa ao mesmo tempo tudo e nada. Em outras palavras, significa qualquer coisa que se queira que signifique: rebelião da juventude contra o autoritarismo, solidariedade com os pobres e explorados, santidade, […] trabalho pelo bem de todos. Há alguns anos, um alto representante do Vaticano afirmou que os louvores ao Che deveriam ser entendidos como expressão da admiração por um homem que arriscou e deu a vida pelo bem dos outros. Como sempre, a beatificação inofensiva se mistura com seu oposto, a mercantilização obscena.Recentemente, uma empresa australiana pôs no mercado o sorvete “Cherry Guevara”, é claro que concentrando a propaganda na “experiência de comer”: “A luta revolucionária das cerejas foi esmagada ao serem encurraladas entre duas camadas de chocolate. Que a memória delas viva em sua boca!” (1)No entanto, há algo de desesperado nessa insistência de que o Che se tornou um logotipo-mercadoria inofensivo - testemunhamos a série recente de publicações que nos advertem de que ele também foi um assassino frio que organizou os expurgos cubanos de 1959 e assim por diante. É significativo que essas advertências tenham surgido exatamente quando novas rebeliões anticapitalistas começam a ocorrer no mundo, tornando o ícone mais uma vez potencialmente perigoso…”SLAVOJ ZIZEK"Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa"Editora Boitempo (Pg. 56, 57)(1) Michael Glover, “The marketing of a marxist”, Times, Londres, 6 jun 2006.

"Os protestos anticapitalistas dos anos 1960 (de Maio de 68 em Paris ao movimento estudantil da Alemanha e aos hippies dos EUA) remataram a crítica-padrão à exploração socioeconômica com os novos temas da crítica cultural: a alienação da vida cotidiana, a mercantilização do consumo, a inautenticidade da sociedade de massas, em que somos obrigados a "usar máscaras" e a nos submeter à opressão sexual, entre outras. 

Podemos entender agora por que tanta gente insiste que Che Guevara, um dos símbolos de 68, tornou-se “o ícone pós-moderno quintessencial”, que significa ao mesmo tempo tudo e nada. Em outras palavras, significa qualquer coisa que se queira que signifique: rebelião da juventude contra o autoritarismo, solidariedade com os pobres e explorados, santidade, […] trabalho pelo bem de todos. 

Há alguns anos, um alto representante do Vaticano afirmou que os louvores ao Che deveriam ser entendidos como expressão da admiração por um homem que arriscou e deu a vida pelo bem dos outros. Como sempre, a beatificação inofensiva se mistura com seu oposto, a mercantilização obscena.

Recentemente, uma empresa australiana pôs no mercado o sorvete “Cherry Guevara”, é claro que concentrando a propaganda na “experiência de comer”: “A luta revolucionária das cerejas foi esmagada ao serem encurraladas entre duas camadas de chocolate. Que a memória delas viva em sua boca!” (1)

No entanto, há algo de desesperado nessa insistência de que o Che se tornou um logotipo-mercadoria inofensivo - testemunhamos a série recente de publicações que nos advertem de que ele também foi um assassino frio que organizou os expurgos cubanos de 1959 e assim por diante. É significativo que essas advertências tenham surgido exatamente quando novas rebeliões anticapitalistas começam a ocorrer no mundo, tornando o ícone mais uma vez potencialmente perigoso…”

SLAVOJ ZIZEK
"Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa"
Editora Boitempo (Pg. 56, 57)

(1) Michael Glover, “The marketing of a marxist”, Times, Londres, 6 jun 2006.

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