Depredando o Orelhão

Da Série: REFLEXÕES GRATUITAS"OS SECTARISMOS MONOTEÍSTAS E SUA GUERRA PERPÉTUA"Os conflitos Israel X Palestina, ou mesmo a guerra dos EUA contra o Afeganistão e o Iraque, são descritos por alguns como “choques entre civilizações”, mas poderiam também, me parece, ser enxergados também como “clashs” entre monoteísmos dogmáticos irreconciliáveis. Alá, Jeová e Deus não se dão um com o outro: são figuras míticas que têm características diversas; as prescrições e proibições que fazem a seus fiéis são diferentes; as “tábuas de valores” entre os sistemas de cada um dos monoteísmos não se harmonizam… 
Pior ainda: quando um grupo religioso declara-se “eleito”, predileto da divindade única que supostamente gere o Universo e visa o Bem último de seu grupo de fiéis, este “particularismo” e esta presunção (algo como: “a salvação pertence a mim, não a vocês!”, ou “eu é que vou pro Céu, você vai queimar é no Inferno!”) contribui para acirrar os ânimos e levar à esta guerra demencial entre presunçosos megalomaníacos que reivindicam, cada um de seu lado, o prestígio de serem “os queridinhos do Criador”. E dá-lhe conflitos entre fanáticos, que já inundam de sangue o planeta há tantos séculos, e que infelizmente sobrevivem neste ano 2012 da era cristã. Quando um povo baseia seu suposto direito à posse de um certo território, por exemplo, com um argumento do tipo “Foi Deus quem me deu” ou “É a divina vontade de Javé, comunicada no livro sagrado de meu povo, que me dá o direito a esta terra, e me dá inclusive o sagrado direito de exterminar os ímpios que aqui vivem…”, o caminho conduzirá na certa à catástrofe… O instigante texto abaixo, de Pierre Bourdieu, extraído do livro “A Economia das Trocas Simbólicas”, traz uma interessante reflexão sobre monoteísmo e sectarismo e aponta a religião como um instrumento de legitimação da dominação. Nesta leitura, inspirada em Weber e Marx, a religião é compreendida como um sistema ideológico ou construto cultural, criada por uma elite de especialistas que monopolizam capital cultural. Toda “seita” religiosa monoteísta seria dotada de um mecanismo brutal de “exclusão”, segregação e às vezes extermínio do que difere dela. "Morte aos profanos, morte aos hereges!" - brada todo monoteísmo. Jamais alguma seita monoteísta conseguiu "triunfar" e reinar sobre o conjunto da humanidade, é claro (uma perspectiva, aliás, pavorosa!), de modo que a realidade concreta sempre foi a da variedade religiosa, da coexistência de infindas diferenças, nunca expurgadas com sucesso nem pelas mais poderosas cruzadas imperialistas. Aquele que é devoto fiel do cristianismo é visto como demônio pelo muçulmano; o assecla da Alá é um idólatra de falsos deuses, segundo o judaísmo, mas Javé, segundo um Árabe, é que é o falso deus… Já que não conseguem entrar em acordo, matam-se como loucos, e engolfam em seus combates demenciais os bebês, os velhos, as crianças, as mulheres, os civis… Ecoando um lamento de Nietzsche: "Já por muito tempo a terra foi um hospício!…" (A Genealogia da Moral, Dissertação II, #22). * * * * *UM TEXTO BACANÍSSIMO DE PIERRE BOURDIEU:“Weber está de acordo com Marx ao afirmar que a religião cumpre uma função de conservação da ordem social contribuindo para a “legitimação” do poder dos “dominantes” e para a “domesticação dos dominados”. (…) A religião favorece o desenvolvimento de um corpo de especialistas incumbidos da gestão dos bens de salvação. (…) Extremamente raro nas sociedades primitivas, o desenvolvimento de um verdadeiro monoteísmo está ligado à aparição de um corpo de sacerdotes organizado.Isto significa que o monoteísmo, totalmente ignorado pelas sociedades cuja economia se baseia na coleta, na pesca e/ou na caça, somente se expande nas classes dominantes das sociedades fundadas em uma agricultura já desenvolvida e uma divisão em classes nas quais os progressos da divisão do trabalho se fazem acompanhar por uma divisão correlata, a divisão do trabalho de dominação e, em particular, da divisão do trabalho religioso. O corpo de sacerdotes deriva o princípio de sua legitimidade de uma teologia erigida em dogma, cuja validade e perpetuação ele garante. (…) Afirma-se a tendência dos especialistas de fecharem-se na referência autárquica ao saber religioso acumulado… O resultado da monopolização da gestão dos bens de salvação por um corpo de especialistas religiosos, socialmente reconhecidos como os detentores exclusivos desta competência específica, acompanha a desapropriação objetiva daqueles que dele são excluídos e que se transformam por esta razão em “leigos” ou “profanos”, destituídos do capital religioso (enquanto trabalho simbólico acumulado). Como bem observa Weber, tendo em vista que a visão do mundo proposta pelas grandes religiões universais é o produto de grupos bem definidos (teólogos puritanos, sábios confucionistas, brâmanes hindus, levitas judeus etc.) e até de indivíduos (como os profetas) que falam em nome de grupos determinados, a análise da estrutura interna da mensagem religiosa não pode ignorar impunemente as funções sociologicamente construídas que ela cumpre: primeiro, em favor dos grupos que a produzem e, em seguida, em favor dos grupos que a consomem.Um sistema de práticas e crenças está fadado a ser considerado como magia ou como feitiçaria, no sentido de religião inferior, todas as vezes que ocupar uma posição dominada na estrutura das relações de força simbólica. (…) No âmbito de uma mesma formação social, a oposição entre a religião e a magia, entre o sagrado e o profano, dissimula a oposição entre diferenças de competência religiosa que estão ligadas à estrutura de distribuição do capital cultural. Pode-se verificar esse fato na relação entre o confucionismo e a religiosidade das classes populares chinesas, relegadas à ordem da magia pelo desprezo e pela suspeita dos letrados que elaboram o ritual refinado da religião do estado e que impõem a dominação e a legitimidade de suas doutrinas e de suas teorias sociais, apesar de algumas vitórias locais e provisórias dos sacerdotes taoístas e budistas cujas doutrinas e práticas estão mais próximas dos interesses das massas.Toda prática ou crença dominada está fadada a aparecer como profanadora na medida em que, por sua própria existência e na ausência de qualquer intenção de profanação, constitui uma contestação objetiva do monopólio da gestão do sagrado e, portanto, da legitimidade dos detentores desse monopólio. ”PIERRE BOURDIEU"A Economia das Trocas Simbólicas"Ed. PerspectivaPgs 32-45

Da Série: REFLEXÕES GRATUITAS

"OS SECTARISMOS MONOTEÍSTAS E SUA GUERRA PERPÉTUA"

Os conflitos Israel X Palestina, ou mesmo a guerra dos EUA contra o Afeganistão e o Iraque, são descritos por alguns como “choques entre civilizações”, mas poderiam também, me parece, ser enxergados também como “clashs” entre monoteísmos dogmáticos irreconciliáveis. Alá, Jeová e Deus não se dão um com o outro: são figuras míticas que têm características diversas; as prescrições e proibições que fazem a seus fiéis são diferentes; as “tábuas de valores” entre os sistemas de cada um dos monoteísmos não se harmonizam… 


Pior ainda: quando um grupo religioso declara-se “eleito”, predileto da divindade única que supostamente gere o Universo e visa o Bem último de seu grupo de fiéis, este “particularismo” e esta presunção (algo como: “a salvação pertence a mim, não a vocês!”, ou “eu é que vou pro Céu, você vai queimar é no Inferno!”) contribui para acirrar os ânimos e levar à esta guerra demencial entre presunçosos megalomaníacos que reivindicam, cada um de seu lado, o prestígio de serem “os queridinhos do Criador”. 

E dá-lhe conflitos entre fanáticos, que já inundam de sangue o planeta há tantos séculos, e que infelizmente sobrevivem neste ano 2012 da era cristã. Quando um povo baseia seu suposto direito à posse de um certo território, por exemplo, com um argumento do tipo “Foi Deus quem me deu” ou “É a divina vontade de Javé, comunicada no livro sagrado de meu povo, que me dá o direito a esta terra, e me dá inclusive o sagrado direito de exterminar os ímpios que aqui vivem…”, o caminho conduzirá na certa à catástrofe… 

O instigante texto abaixo, de Pierre Bourdieu, extraído do livro “A Economia das Trocas Simbólicas”, traz uma interessante reflexão sobre monoteísmo e sectarismo e aponta a religião como um instrumento de legitimação da dominação. Nesta leitura, inspirada em Weber e Marx, a religião é compreendida como um sistema ideológico ou construto cultural, criada por uma elite de especialistas que monopolizam capital cultural. Toda “seita” religiosa monoteísta seria dotada de um mecanismo brutal de “exclusão”, segregação e às vezes extermínio do que difere dela. 

"Morte aos profanos, morte aos hereges!" - brada todo monoteísmo. Jamais alguma seita monoteísta conseguiu "triunfar" e reinar sobre o conjunto da humanidade, é claro (uma perspectiva, aliás, pavorosa!), de modo que a realidade concreta sempre foi a da variedade religiosa, da coexistência de infindas diferenças, nunca expurgadas com sucesso nem pelas mais poderosas cruzadas imperialistas. Aquele que é devoto fiel do cristianismo é visto como demônio pelo muçulmano; o assecla da Alá é um idólatra de falsos deuses, segundo o judaísmo, mas Javé, segundo um Árabe, é que é o falso deus… Já que não conseguem entrar em acordo, matam-se como loucos, e engolfam em seus combates demenciais os bebês, os velhos, as crianças, as mulheres, os civis… Ecoando um lamento de Nietzsche: "Já por muito tempo a terra foi um hospício!…" (A Genealogia da Moral, Dissertação II, #22). 

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UM TEXTO BACANÍSSIMO DE PIERRE BOURDIEU:

“Weber está de acordo com Marx ao afirmar que a religião cumpre uma função de conservação da ordem social contribuindo para a “legitimação” do poder dos “dominantes” e para a “domesticação dos dominados”. (…) A religião favorece o desenvolvimento de um corpo de especialistas incumbidos da gestão dos bens de salvação. (…) Extremamente raro nas sociedades primitivas, o desenvolvimento de um verdadeiro monoteísmo está ligado à aparição de um corpo de sacerdotes organizado.

Isto significa que o monoteísmo, totalmente ignorado pelas sociedades cuja economia se baseia na coleta, na pesca e/ou na caça, somente se expande nas classes dominantes das sociedades fundadas em uma agricultura já desenvolvida e uma divisão em classes nas quais os progressos da divisão do trabalho se fazem acompanhar por uma divisão correlata, a divisão do trabalho de dominação e, em particular, da divisão do trabalho religioso. 

O corpo de sacerdotes deriva o princípio de sua legitimidade de uma teologia erigida em dogma, cuja validade e perpetuação ele garante. (…) Afirma-se a tendência dos especialistas de fecharem-se na referência autárquica ao saber religioso acumulado… O resultado da monopolização da gestão dos bens de salvação por um corpo de especialistas religiosos, socialmente reconhecidos como os detentores exclusivos desta competência específica, acompanha a desapropriação objetiva daqueles que dele são excluídos e que se transformam por esta razão em “leigos” ou “profanos”, destituídos do capital religioso (enquanto trabalho simbólico acumulado). 

Como bem observa Weber, tendo em vista que a visão do mundo proposta pelas grandes religiões universais é o produto de grupos bem definidos (teólogos puritanos, sábios confucionistas, brâmanes hindus, levitas judeus etc.) e até de indivíduos (como os profetas) que falam em nome de grupos determinados, a análise da estrutura interna da mensagem religiosa não pode ignorar impunemente as funções sociologicamente construídas que ela cumpre: primeiro, em favor dos grupos que a produzem e, em seguida, em favor dos grupos que a consomem.

Um sistema de práticas e crenças está fadado a ser considerado como magia ou como feitiçaria, no sentido de religião inferior, todas as vezes que ocupar uma posição dominada na estrutura das relações de força simbólica. (…) No âmbito de uma mesma formação social, a oposição entre a religião e a magia, entre o sagrado e o profano, dissimula a oposição entre diferenças de competência religiosa que estão ligadas à estrutura de distribuição do capital cultural. 

Pode-se verificar esse fato na relação entre o confucionismo e a religiosidade das classes populares chinesas, relegadas à ordem da magia pelo desprezo e pela suspeita dos letrados que elaboram o ritual refinado da religião do estado e que impõem a dominação e a legitimidade de suas doutrinas e de suas teorias sociais, apesar de algumas vitórias locais e provisórias dos sacerdotes taoístas e budistas cujas doutrinas e práticas estão mais próximas dos interesses das massas.

Toda prática ou crença dominada está fadada a aparecer como profanadora na medida em que, por sua própria existência e na ausência de qualquer intenção de profanação, constitui uma contestação objetiva do monopólio da gestão do sagrado e, portanto, da legitimidade dos detentores desse monopólio. ”

PIERRE BOURDIEU
"A Economia das Trocas Simbólicas"
Ed. Perspectiva
Pgs 32-45
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