Depredando o Orelhão

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SAUDAÇÃO (Lawrence Ferlinghetti) A cada animal que abate ou come sua própria espécie E cada caçador com rifles montados em camionetas E cada miliciano ou atirador particular com mira telescópica E cada capataz sulista de botas com seus cães & espingardas de cano serrado E cada policial guardião da paz com seus cães treinados para rastrear & matar E cada tira à paisana ou agente secreto com seu coldre oculto cheio de morte E cada funcionário público que dispara contra o público ou que alveja-para-matar criminosos em fuga E cada Guardia Civil em qualquer pais que guarda os civis com algemas & carabinas E cada guarda-fronteiras em tanto faz qual posto da barreira em tanto faz qual lado de qual Muro de Berlim cortina de Bambu ou de Tortilha E cada soldado de elite patrulheiro rodoviário em calças de equitação sob medida & capacete protetor de plástico & revólver em coldre ornado de prata E cada radiopatrulha com armas antimotim & sirenes e cada tanque antimotim com cassetetes & gás lacrimogênio E cada piloto de avião com foguetes & napalm sob as asas E cada capelão que abençoa bombardeiros que decolam E qualquer Departamento de Estado de qualquer superestado que vende armas aos dois lados E cada Nacionalista em tanto faz que Nação em tanto faz qual mundo Preto Pardo ou Branco que mata por sua Nação E cada profeta com arma de fogo ou branca e quem quer que reforce as luzes do espírito à força ou reforce o poder de qualquer estado com mais Poder E a qualquer um e a todos que matam & matam & matam & matam pela Paz Eu ergo meu dedo médio na única saudação apropriada (Prisão de Santa Rita, 1968)
 [Tradução: Nelson Ascher]
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SAUDAÇÃO (Lawrence Ferlinghetti)

A cada animal que abate ou come sua própria
espécie
E cada caçador com rifles montados em
camionetas
E cada miliciano ou atirador particular
com mira telescópica
E cada capataz sulista de botas com seus cães
& espingardas de cano serrado
E cada policial guardião da paz com seus cães
treinados para rastrear & matar
E cada tira à paisana ou agente secreto
com seu coldre oculto cheio de morte
E cada funcionário público que dispara contra o
público ou que alveja-para-matar
criminosos em fuga
E cada Guardia Civil em qualquer pais que
guarda os civis com algemas & carabinas
E cada guarda-fronteiras em tanto faz qual
posto da barreira em tanto faz qual lado de
qual Muro de Berlim cortina de Bambu ou
de Tortilha
E cada soldado de elite patrulheiro rodoviário
em calças de equitação sob medida &
capacete protetor de plástico &
revólver em coldre ornado de prata
E cada radiopatrulha com armas antimotim &
sirenes e cada tanque antimotim com
cassetetes & gás lacrimogênio
E cada piloto de avião com foguetes & napalm
sob as asas
E cada capelão que abençoa bombardeiros que
decolam
E qualquer Departamento de Estado de qualquer
superestado que vende armas aos dois lados
E cada Nacionalista em tanto faz que Nação em
tanto faz qual mundo Preto Pardo ou Branco
que mata por sua Nação
E cada profeta com arma de fogo ou branca e
quem quer que reforce as luzes do espírito
à força ou reforce o poder de qualquer
estado com mais Poder
E a qualquer um e a todos que matam & matam & matam & matam pela Paz
Eu ergo meu dedo médio na única saudação apropriada


(
Prisão de Santa Rita, 1968)

[Tradução: Nelson Ascher]

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Patrocinadores da Repressão!As mega-corporações e a grande mídia têm todo o interesse em mandar a polícia descer o sarrafo nos manifestantes. Muitos dos que tomaram as ruas incomodam o Grande Capital pois demandam por menos capitalismo neoliberal e mais serviços públicos de qualidade. Os P.M.s são paus-mandados dos Estados, mas estes, em larga medida, tornaram-se reféns dos interesses econômicos sórdidos de corporações que visam o lucro e estão cagando para o bem-estar das massas… A repressão militar, este resquício de Ditadura que está ainda nas ruas, calando a voz da democracia a balas de borracha e gás lacrimôgeneo, defende a conservação do status quo. O capitalismo brasileiro tremeu em seus alicerces com 1 milhão de vozes nas ruas e agora procura aterrorizar o Brasil de volta para a letargia, para o marasmo e para a obediência… Mas suspeito que não vai dar certo: quanto mais porrada os manifestantes levam, mais lenha se lança na fogueira da indignação. Os ventos da mudança estão soprando! Na final da Copa das Confedereções, no Rio de Janeiro, o menos importante será o jogo de bola: nas ruas, o que se estará fazendo é a História!
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Patrocinadores da Repressão!

As mega-corporações e a grande mídia têm todo o interesse em mandar a polícia descer o sarrafo nos manifestantes. Muitos dos que tomaram as ruas incomodam o Grande Capital pois demandam por menos capitalismo neoliberal e mais serviços públicos de qualidade. Os P.M.s são paus-mandados dos Estados, mas estes, em larga medida, tornaram-se reféns dos interesses econômicos sórdidos de corporações que visam o lucro e estão cagando para o bem-estar das massas… A repressão militar, este resquício de Ditadura que está ainda nas ruas, calando a voz da democracia a balas de borracha e gás lacrimôgeneo, defende a conservação do status quo. O capitalismo brasileiro tremeu em seus alicerces com 1 milhão de vozes nas ruas e agora procura aterrorizar o Brasil de volta para a letargia, para o marasmo e para a obediência… Mas suspeito que não vai dar certo: quanto mais porrada os manifestantes levam, mais lenha se lança na fogueira da indignação. Os ventos da mudança estão soprando! Na final da Copa das Confedereções, no Rio de Janeiro, o menos importante será o jogo de bola: nas ruas, o que se estará fazendo é a História!

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Brasil na capa do The New York Times de hoje (19/06): PM manda spray de pimenta na cara de uma manifestante solitária e desarmada… Veja o PDF da primeira página completa: http://nyti.ms/190gL54. Também saiu na matéria do Washington Post.Compartilhe

Brasil na capa do The New York Times de hoje (19/06): PM manda spray de pimenta na cara de uma manifestante solitária e desarmada… Veja o PDF da primeira página completa: http://nyti.ms/190gL54. Também saiu na matéria do Washington Post.

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"Jamais achei que ele fosse atirar",

afirma repórter atingida em protesto


São Paulo, 13 de Junho de 2013: 105 manifestantes feridos (15 deles eram jornalistas) e 235 manifestantes detidos. Vale muito a pena assistir a esta reportagem da TV Folha sobre os protestos em São Paulo e os inúmeros abusos cometidos pela Polícia Militar a mando do governo Alckmin. 

13 min de duração.
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P.M. = Pau Mandado
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P.M. = Pau Mandado

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“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas as margens que o comprimem” - BERTOLD BRECHT

Galera, aí vai uma primeira leva de artigos da imprensa e opiniões colhidas nas redes sociais sobre os protestos em São Paulo, no dia 13 de junho de 2013, e a brutal repressão policial a eles:

MAIS FOTOS AQUI - COMPARTILHAR NO FACEBOOK

* UOL NOTÍCIAS [http://bit.ly/18GrD86]: “Pegou mal para a PM”, diz prefeito Haddad, ressaltando que a PM é do Estado” (ou seja, a mando do governo de Alckmin)

* “A BADERNA É DA POLÍCIA” [http://bit.ly/197dnlx] - por Rodrigo Vianna @ Viomundo: “Qual o nome para o que a Polícia Militar fez em São Paulo durante mais uma manifestação contra o aumento das passagens de ônibus e metrô? Proibiu carros de som e megafones nas ruas, agrediu jornalistas e fotógrafos, encurralou manifestantes, atirou bombas a esmo, pisoteou a Democracia…”

* IG - ÚLTIMO SEGUNDO [http://bit.ly/11A8Ulg]: “Em noite violenta, PM atirou até em quem pedia ‘não machuquem os meninos’ em SP - Reportagem do iG flagrou diversos casos de arbitrariedades cometidos pela PM na região central ao longo da tarde e início da noite de quinta-feira. Mais de 230 pessoas foram detidas…”

* ELIO GASPARI, “A PM começou a Batalha na Maria Antonia” [http://glo.bo/1bByprS]: Quem acompanhou a manifestação contra o aumento das tarifas de ônibus ao longo dos dois quilômetros que vão do Teatro Municipal à esquina da Consolação com a rua Maria Antônia pode assegurar: os distúrbios desta quinta-feira começaram às 19h10m, pela ação da polícia, mais precisamente por um grupo de uns vinte homens da tropa de choque, com suas fardas cinzentas, que, a olho nu, chegaram com esse propósito.
Com viseiras e escudos, os PMs formaram um bloco no meio da pista. Ninguém parlamentou. Nenhum megafone mandando a passeata parar. Nenhuma advertência. Em menos de um minuto esse núcleo começou a atirar rojões e bombas de gás lacrimogênio. Chegara-se a Istambul.”

* FOLHA DE SÃO PAULO [http://bit.ly/162l3nb]: “Fotógrafo corre o risco de perder a visão após ser atingido por bala de borracha. (…) O protesto de ontem também deixou sete jornalistas da Folha feridos, dois deles com tiros de borracha na região do rosto. Os sete estavam identificados como profissionais de imprensa…” 

* FLÁVIO GOMES [http://bit.ly/19rFOgP]: “Há um histórico de décadas de violência cometida pelo Estado brasileiro que é invisível à classe média encastelada. Isso que a PM faz com os vândalos, baderneiros, filhos da puta e babacas é o que sempre foi feito nas periferias, contra os pobres e pretos, sem câmeras de TV e links ao vivo — quase nunca nem vândalos, nem baderneiros, nem babacas, nem filhos da puta. É política de Estado bater e matar. Em São Paulo, quem mora aqui sabe, há anos vive-se em estado de guerra, com grupos de extermínio saindo alegremente pelas noites escuras para executar gente numa matança indiscriminada que, claro, tem troco. Muitos dos que saíram arrebentando tudo nos últimos dias fazem parte dessa massa de não-babacas e não-filhos da puta que, no seu dia a dia, são tratados como animais pela PM nas franjas da cidade.”

* REPERCUSSÃO INTERNACIONAL: MATÉRIA DO THE NEY YORK TIMES [http://nyti.ms/161yqEq]: “Protests by an increasingly forceful movement coalescing against increases in bus fares shook Brazil’s two largest cities on Thursday night, the fourth time in a week that activists have taken to the streets in demonstrations that have been marked by clashes with security forces…”

* “24 MOMENTOS DO PROTESTO QUE VOCÊ NÃO VERÁ NA TV”: http://bit.ly/1785qPH

* REPÓRTER DE CARTA CAPITAL É PRESO POR PORTAR VINAGRE: http://youtu.be/5w1fxiXxdbw.

* * * * * *

OPINIÕES COLHIDAS NAS REDES SOCIAIS:

André Forastieri:

Os PMs são cães de guarda fazendo que foram treinados pra fazer, obedecer ordens. Quem deu as ordens e assinou embaixo é que têm que pagar caro por tudo. O nome deles é Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, com a conivência da presidente da república, e os apupos de toda a grande imprensa.

* * * * *

Pablo Capilé:

A PM de SP esta promovendo um show de horrores nas ruas da cidade! Violação completa de todo e qualquer direito humano! A manifestação estava tranquila e pacífica e o choque começou a atirar e mandar bombas! Inadmissível que isso aconteça! Vergonhoso!

A “grande” imprensa se portou hoje como se estivesse na Ditadura. É co-responsavel pelas barbaridades que estão acontecendo na rua! Folha e Estadão prestam um enorme desserviço para a população e ultrapassam todo e qualquer limite!

Os anos de gestão do PSDB em SP são os principais responsaveis por tudo o que esta acontecendo na cidade! Alckmin e Serra são os principais mentores dessa logica repressora e violenta promovida pela PM! Não da mais pra aceitar esses mandos e desmandos! Vamos pra cima deles! Viva os movimentos! Não dá pro PT e o Haddad ficarem se esquivando de um posicionamento mais claro e incisivo sobre o que está acontecendo em SP. A Policia é criminosa e as pessoas estão sendo violentadas e espancadas! É inadmissivel que uma prefeitura governada pelo Partido dos Trabalhadores aceite que isso aconteça! O desgaste vai aumentar ainda mais, precisa mudar o rumo urgentemente!

* * * * *

Bruno Torturra:

Se eu já não tinha qualquer respeito pela PM, agora tenho menos ainda. Mas não vamos esquecer do que significa a sigla de fato: Pau Mandado. A tucanada forma e comanda essa corporação faz tempo. Tempo demais. A vista grossa de Haddad é gravíssima. Mas ao Füher o que é do Füher. Geraldo Alckmin, o senhor é acusado de formação de quadrilha. 

* * * * *

Eduardo Mesquita:

Bobinhos os que - vendo o que houvem em SP - se posicionam como rebeldes contra a polícia. Forças de segurança - repressoras ou não - são ferramentas, braços armados do Estado. Vou repetir: DO ESTADO. O que acontece hoje não tem bandeira. Não é culpa do PSDB ou do PT, é culpa de partidos canalhas, políticos vendidos, posturas rasas da população, tudo junto num caldo de insatisfação. Atacar - somente - a polícia, é culpar o band aid porque o machucado não cura.

* * * * *

Pablo Ortellado:

O governador achou que com brutalidade ia por fim ao movimento… Devia ler mais livros de história. Na segunda-feira a cidade vai se levantar.

* * * * *

Vladimir Cunha: São Paulo precisa queimar [http://on.fb.me/13GE66s]

"Chega de Sangue": na Praça da Sé, disputando também o imaginário do aniversário da cidade, ocorreu uma manifestação pelos direitos humanos e contra o extermínio da Juventude Negra na manhã do Aniversário de São Paulo. Veja as fotos: http://bit.ly/10J2Mao
A manifestação ocorre um dia depois da Audiência Pública realizada no Capão Redondo com a presença dos secretários de Direitos Humanos, Rogério Sottili, e de promoção da Igualdade Racial, Netinho de Paula, além de representantes da sociedade civil e de diversos movimentos. »> Texto por Lino Bocchini @ Overmundo

"Chega de Sangue": na Praça da Sé, disputando também o imaginário do aniversário da cidade, ocorreu uma manifestação pelos direitos humanos e contra o extermínio da Juventude Negra na manhã do Aniversário de São Paulo. Veja as fotos: http://bit.ly/10J2Mao

A manifestação ocorre um dia depois da Audiência Pública realizada no Capão Redondo com a presença dos secretários de Direitos Humanos, Rogério Sottili, e de promoção da Igualdade Racial, Netinho de Paula, além de representantes da sociedade civil e de diversos movimentos»> Texto por Lino Bocchini @ Overmundo

VIOLÊNCIA POLICIAL E ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA:Os casos Crackolândia e Pinheirinhopor Edson Telles (*) Ilustração: LaerteDemocracia com violência de Estado e especulação imobiliária: duas questões cruciais que nos chamam a atenção nos recentes episódios de ação da Polícia Militar do Estado de São Paulo, para “restabelecer a ordem e a legalidade”, os quais se configuraram como violentos e sem eficácia do ponto de vista do interesse público.
A chamada Cracolândia e o bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, têm algo em comum além do fato de terem sido o palco das recentes violações de direitos sofridas por parte de uma parcela da população que parece não ter “direito a ter direitos” (nas palavras críticas de Hannah Arendt). Ambos os locais possuem em comum o fato de serem áreas de forte especulação imobiliária.Os usuários de crack do centro de São Paulo encontram-se na região que o governo definiu para a execução do projeto “Nova Luz”, em referência ao discurso que assinala esta área como decadente, repleta de marginais, abandonada, suja… Neste projeto higienista, a Prefeitura pretende vender ao sistema privado o direito de desapropriar e estabelecer as prioridades da nova ocupação do bairro de acordo com interesses particulares, em detrimento do bem público. A área classificada pelos governos como abandonada sedia um dos maiores centros brasileiros de comércio de equipamentos eletrônicos e de informática. Quem já foi à Santa Efigênia, ou mesmo à Rua 25 de março, constata, ao contrário, a decadência da presença do poder público, com ausência de serviços essenciais, inclusive os de saúde pública, como a limpeza das ruas. A ação repressiva da PM somente espalhou os chamados craqueiros para outros locais da região central, passando longe de ser solução, mas abrindo a possibilidade de formalizar o “progresso” imobiliário e comercial da região.No bairro Pinheirinho, o conhecido especulador financeiro Naji Nahas detém, por meio de uma empresa falida, de sua propriedade, a área de moradia de quase 1.600 famílias. Pertencente a um casal de alemães mortos em 1969, não se sabe ao certo como o terreno, de posse do Estado por falta de herdeiros legais, acabou como propriedade de Nahas. Sabemos que o Estado, via decisão de uma juíza de São José dos Campos, confirmada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, determinou o despejo deste enorme contingente de pessoas, sem lhes garantir o direito à moradia, autorizando jogá-las na incerteza da ausência de um teto, inclusive com o uso de cassetetes, balas de borracha e gás de pimenta. Autorizado pelas leis, o governo optou pela violência em lugar de discutir uma alternativa de moradia ou mesmo de permanência no local.Em várias ocasiões, na história da humanidade, pudemos ver a cena de pessoas amontoadas, crianças, idosos, doentes, sem seus pertences, normalmente, fruto de algum tsunami ou catástrofe natural, ou mesmo de uma guerra. Em Pinheirinho, vimos a mesma cena, contudo, provocada pelo Judiciário e pelo governo do Estado, com o apoio do aparato repressivo da Polícia Militar. É chocante!De fato, o poder público, aliado ao interesse privado da especulação, coloca-se favorável a uma ideia da expansão imobiliária como sinal de desenvolvimento. É histórico, em qualquer área urbana, que tais “reformas” levam a uma valorização financeira do metro quadrado, lançando a população pobre para além dos limites das atuais condições já precárias de moradia. Para que o projeto especulativo se concretize nestas áreas é necessário limpá-las da presença dos pobres. Leiam o comentário postado na página da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo:“Após a limpeza, já era possível circular tanto a pé como de carro pelas alamedas Cleveland, Dino Bueno e Glete e a rua Helvétia, que ficam no entorno da praça Júlio Prestes. Locais que eram usados como esconderijos e moradia dos usuários de drogas foram desocupados e estabelecimentos comerciais funcionavam normalmente.” (03.01.2012)Experimentamos, nestes casos, uma clara demonstração de um projeto autoritário para as relações entre o poder público e a população. Apesar de a Constituição brasileira tratar o direito à moradia como absoluto e o direito à propriedade como relativo à sua função social, o Estado, por meio de seus diversos poderes, em caso de conflito, tem atuado em favor do “desenvolvimento”. Para tanto, tem feito uso sistemático, especialmente em São Paulo, de uma Polícia Militar cada vez mais violenta (nunca esta instituição matou tanto na última década quanto no ano de 2011!) e repressiva (espanca estudantes da USP dentro do campus).Sua organização e disciplina, subordinadas ao comando do Exército, são regidas pelas mesmas regras impostas pela Constituição outorgada pela ditadura em 1969. Com a mudança do regime de exceção para a democracia, não houve a revisão ou reforma das instituições ligadas à segurança nacional e pública, mantendo nestes setores uma ideologia agressiva com a população não proprietária e garantindo a impunidade para as violências praticadas por seus agentes.Vivemos um momento grave de nossa vida social em que precisamos refletir sobre qual democracia queremos e, mais do que isto, agir com radicalidade para denunciar um modo autoritário e manipulador de se fazer política. *****(*) Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Unifesp. Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios “O que resta da ditadura: a exceção brasileira” (2010). Leia mais artigos de Edson Telles no Blog da Editora Boitempo »> [http://bit.ly/Ns8WHt]

VIOLÊNCIA POLICIAL E ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA:
Os casos Crackolândia e Pinheirinho
por Edson Telles (*) 
Ilustração: Laerte

Democracia com violência de Estado e especulação imobiliária: duas questões cruciais que nos chamam a atenção nos recentes episódios de ação da Polícia Militar do Estado de São Paulo, para “restabelecer a ordem e a legalidade”, os quais se configuraram como violentos e sem eficácia do ponto de vista do interesse público.


A chamada Cracolândia e o bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, têm algo em comum além do fato de terem sido o palco das recentes violações de direitos sofridas por parte de uma parcela da população que parece não ter “direito a ter direitos” (nas palavras críticas de Hannah Arendt). Ambos os locais possuem em comum o fato de serem áreas de forte especulação imobiliária.

Os usuários de crack do centro de São Paulo encontram-se na região que o governo definiu para a execução do projeto “Nova Luz”, em referência ao discurso que assinala esta área como decadente, repleta de marginais, abandonada, suja… Neste projeto higienista, a Prefeitura pretende vender ao sistema privado o direito de desapropriar e estabelecer as prioridades da nova ocupação do bairro de acordo com interesses particulares, em detrimento do bem público. 

A área classificada pelos governos como abandonada sedia um dos maiores centros brasileiros de comércio de equipamentos eletrônicos e de informática. Quem já foi à Santa Efigênia, ou mesmo à Rua 25 de março, constata, ao contrário, a decadência da presença do poder público, com ausência de serviços essenciais, inclusive os de saúde pública, como a limpeza das ruas. A ação repressiva da PM somente espalhou os chamados craqueiros para outros locais da região central, passando longe de ser solução, mas abrindo a possibilidade de formalizar o “progresso” imobiliário e comercial da região.

No bairro Pinheirinho, o conhecido especulador financeiro Naji Nahas detém, por meio de uma empresa falida, de sua propriedade, a área de moradia de quase 1.600 famílias. Pertencente a um casal de alemães mortos em 1969, não se sabe ao certo como o terreno, de posse do Estado por falta de herdeiros legais, acabou como propriedade de Nahas. Sabemos que o Estado, via decisão de uma juíza de São José dos Campos, confirmada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, determinou o despejo deste enorme contingente de pessoas, sem lhes garantir o direito à moradia, autorizando jogá-las na incerteza da ausência de um teto, inclusive com o uso de cassetetes, balas de borracha e gás de pimenta. Autorizado pelas leis, o governo optou pela violência em lugar de discutir uma alternativa de moradia ou mesmo de permanência no local.

Em várias ocasiões, na história da humanidade, pudemos ver a cena de pessoas amontoadas, crianças, idosos, doentes, sem seus pertences, normalmente, fruto de algum tsunami ou catástrofe natural, ou mesmo de uma guerra. Em Pinheirinho, vimos a mesma cena, contudo, provocada pelo Judiciário e pelo governo do Estado, com o apoio do aparato repressivo da Polícia Militar. É chocante!

De fato, o poder público, aliado ao interesse privado da especulação, coloca-se favorável a uma ideia da expansão imobiliária como sinal de desenvolvimento. É histórico, em qualquer área urbana, que tais “reformas” levam a uma valorização financeira do metro quadrado, lançando a população pobre para além dos limites das atuais condições já precárias de moradia. Para que o projeto especulativo se concretize nestas áreas é necessário limpá-las da presença dos pobres. Leiam o comentário postado na página da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo:

“Após a limpeza, já era possível circular tanto a pé como de carro pelas alamedas Cleveland, Dino Bueno e Glete e a rua Helvétia, que ficam no entorno da praça Júlio Prestes. Locais que eram usados como esconderijos e moradia dos usuários de drogas foram desocupados e estabelecimentos comerciais funcionavam normalmente.” (03.01.2012)

Experimentamos, nestes casos, uma clara demonstração de um projeto autoritário para as relações entre o poder público e a população. Apesar de a Constituição brasileira tratar o direito à moradia como absoluto e o direito à propriedade como relativo à sua função social, o Estado, por meio de seus diversos poderes, em caso de conflito, tem atuado em favor do “desenvolvimento”. Para tanto, tem feito uso sistemático, especialmente em São Paulo, de uma Polícia Militar cada vez mais violenta (nunca esta instituição matou tanto na última década quanto no ano de 2011!) e repressiva (espanca estudantes da USP dentro do campus).

Sua organização e disciplina, subordinadas ao comando do Exército, são regidas pelas mesmas regras impostas pela Constituição outorgada pela ditadura em 1969. Com a mudança do regime de exceção para a democracia, não houve a revisão ou reforma das instituições ligadas à segurança nacional e pública, mantendo nestes setores uma ideologia agressiva com a população não proprietária e garantindo a impunidade para as violências praticadas por seus agentes.

Vivemos um momento grave de nossa vida social em que precisamos refletir sobre qual democracia queremos e, mais do que isto, agir com radicalidade para denunciar um modo autoritário e manipulador de se fazer política. 

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(*) Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Unifesp. Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios “O que resta da ditadura: a exceção brasileira” (2010). 

Leia mais artigos de Edson Telles no Blog da Editora Boitempo »> 
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TRAGÉDIAS TRIVIAIS Uma análise de “Proibido Proibir” (Jorge Durán, 2007)Originalmente publicado no Depredando o OrelhãoGosto daquela que mandou o Chico. Quando compôs Gota D’Água, peça escrita em parceria com Paulo Pontes, Chiquinho Buarque apostava numa ideia atrevida: transpor para um típico subúrbio carioca a trama de Medéia, clássica tragédia grega de Eurípides. Esta trama, já transposta para o cinema por Lars Von Trier (1988) e Pier Paolo Pasolini (1969), retrata o destino inglório de Medéia ao ser abandonada por seu marido Jasão e que vinga-se matando os dois filhos do casal. Aos que duvidavam dessa transposição da obra para a realidade carioca, Chico costumava responder:
- “E por que não? Acontecem por dia, no Rio, umas cinco tragédias gregas.”
Proibido Proibir (de Jorge Durán), que eu considero um dos grandes filmes brasileiros dos últimos anos, traz à luz uma destas tragédias cariocas tão cotidianas, tão triviais e às vezes tão ausentes dos grandes jornais de tão recorrentes que se tornaram. É verdade que fomos soterrados, nos últimos anos, por histórias deste Rio que não é o do cartão-postal, do Cristo Redentor, do bondinho do Pão de Açúcar: a faceta trash do Rio é ferida exposta nos dois Tropa de Elite, em Cidade de Deus e Cidade dos Homens, Ônibus 174, Notícias de uma Guerra Particular, Complexo Universo Paralelo, Favela Rising… Mas Proibido Proibir prova que ainda há o que dizer - e muito! - sobre as vidas que convivem e se entrechocam nesta grande metrópole latino-americana que se prepara para receber Copa e Olimpíada.
A parte comédia-romântica do filme é adorável por si só - e não só dá-de-10 em qualquer daqueles filmecos roliudianos água-com-açúcar e inofensivos com a Meg Ryan ou a Sandra Bullock, como também contêm um ménage à trois tão bem amarrado, com diálogos tão espertos e situações tão bem construídas, que rivaliza bonito com qualquer pérola do cinema francês, mesmo do Truffaut ou do Eric Rohmer.
Não é aí neste ménage entre Paulo, León e Letícia que se esconde o elemento trágico do filme de Durán. Proibido Proibir não emula Otelo e não contêm perversidades de Iago ou pescocinhos torcidos de Desdêmona. Pelo contrário: é uma celebração da amizade. Paulo (Caio Blat) e León (Alexandre Rodrigues, que encarnou o Buscapé no clássico de Fernando Meirelles) não deixam de ser “irmãos do peito” só porque um é Flamengo e o outro Botafogo, só porque um é médico e o outro sociólogo, só porque um é branquelo e o outro é negão. O problema é: poderá esta amizade sobreviver ao amor pela mesma mulher?
O diretor e roteirista Dúran, chileno radicado no Brasil, comanda o leme deste navio com o pulso firme de um marinheiro experiente nestas águas turbulentas da violência urbana e da juventude pega no centro do turbilhão. Durán é o roteirista de obras clássicas do cinema latino-americano como Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), Pixote, a lei do mais fraco (1981), ambos de Hector Babenco, e Como nascem os anjos (1996), de Murilo Salles. Com um currículo desses, não surpreende que tenha realizado um filme tão bom em Proibido Proibir - cujo título, aliás, evoca tanto o Tropicalismo e a clássica canção de Caetano quanto o Maio de 68 francês e os slogans pixados nos muros de Paris e que conclamavam a juventude a ser realista e exigir o impossível (dentre muitos outros motes).
Apesar de não conter cenas de passeatas ou grandes manifestações de rua, Proibido Proibir está carregado de política. Os três amigos discutem de forma desabrida e sem meias-palavras sobre as problemáticas mais urgentes de seu dia-a-dia - e divergem sobre o quanto as soluções seriam ou não necessariamente políticas. Apesar de seu título, Proibido Proibir versa pouco sobre autoritarismo e ditadura, ao menos numa olhadela de superfície; o filme é muito mais uma reflexão sobre liberdade e libertação, especialmente por dedicar-se inteiramente a acompanhar, cheio de empatia, estes três jovens tão energicamente libertários. León, Paulo e Letícia, por isso, me parecem ser uma espécie de equivalente, no cinema brasileiro, de outros dois trios que marcaram o cinema mundial nos últimos anos: aquele de Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, e aquele que viaja de ácido na Kombi psicodélica em Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee. 
O que realmente arrasta para os pântanos do trágico um enredo que parecia tão propício a um tratamento Sessão da Tarde ou Malhação é o retrato explícito da realidade social dos subúrbios cariocas. Os ingredientes que conduzem à catástrofe são conhecidos: descaso do poder público com educação, moradia e saúde; brutalidade policial mesclada com abuso de poder e racismo; ciclos de ódio e de vendeta que engolfam todos numa espécie de guerra civil não declarada. Os três amigos, quando tentam salvar o menino Cacau de ser assassinado pelos PMs, enredam-se em situações onde a bala perdida é comuníssima e onde quase ninguém aprendeu o evangelho cantado pelo Rappa: “também morre quem atira”.
Sem dúvida que os detratores podem sustentar que Jorge Durán demoniza a figura da polícia militar, que é a verdadeira vilã da história e aparece na tela, mais uma vez, no papel de carrasca. O mínimo que se pode dizer é que este espírito anti-PM no Brasil de Lula e Dilma está bem no ar dos tempos, em sintonia com o zeitgeist, em especial pois ainda temos frescas na memória ocorrências como o massacre do Carandiru e da Candelária, o caso Ônibus 174 e as “intervenções” dos caveirões da Tropa de Elite nos morros do Rio. A desocupação brutal de Pinheirinho, em São José dos Campos, e o modo selvagem com que a PM paulista lidou com o movimento estudantil da USP durante toda a era do reitor Rodas, são outros sinais de uma instituição que têm cometido os abusos mais grotescos e despertado intensas ondas de indignação legítima. Sei que na cabeça de muito brasileiro ainda ressoa o que disse o Capitão Nascimento no encerramento de Tropa de Elite II, em seu pronunciamento no Senado: “a PM do Rio de Janeiro… tem que acabar!” Mas só a do Rio de Janeiro?
É um filme corajoso no modo como confronta os dogmas e os preconceitos. Estes jovens do filme estão longe de seguirem a cartilha Belchior-iana do “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. São uma juventude que se independeu não só da tutela paterno-materna, como também amadureceu na escola da vida de um modo impossível àqueles que quedaram, quietinhos e submissos, obedientes à família, à Deus e à pátria. São jovens que forjam relacionamentos com uma ousadia que não possuem os mais conservadores, os mais apegados a regras ancestrais e costumes sacralizados.
Outra das qualidades do filme é o tratamento dado à cannabis  no enredo. O cinema brasileiro andou produzindo alguns excelentes documentários sobre o assunto nos últimos anos - com destaque para Cortina de Fumaça e Quebrando o Tabu - mas em poucas obras ficcionais um enredo foi tão bem-bolado a fim de colocar em xeque alguns preconceitos e abrir alguns horizontes mais amplos.
Pela primeira vez no cinema nacional, que eu me lembre, a questão da cannabis medicinal é posta em questão: o personagem de Caio Blat, estudante de medicina, retratado como um profissional muito competente no atendimento aos doentes e pródigo em empatia e auxílio emocional, oferece clandestinamente à sua paciente alguns béques que a senhora aceita com os olhos brilhando de júbilo. Ele sabe que, caso a direção do hospital ficasse sabendo, ele estaria enrascado e correria o risco de ser expulso. Mas sabe também, por experiência própria, a magnitude e a variedade dos efeitos terapêuticos da cannabis, conhecidos e empregados pela humanidade, nas mais variadas culturas, há milênios e milênios. 
Que o Brasil ainda esteja empacado numa política de drogas que proíbe radicalmente o uso e o cultivo da cannabis, inclusive para fins medicinais, é mais uma prova do nosso atraso e de nossos conservadorismos irracionais. Muitos pacientes que hoje penam com o câncer, a AIDS ou a depressão, por exemplo, poderiam ter uma qualidade de vida imensamente superior caso adotássemos um sistema semelhante àquele da Califórnia, onde a legalização da cannabis medicinal foi efetivada com pleno sucesso, com imensos efeitos positivos não só para os doentes, como para a própria economia local. 
Proibido Proibir nos convida a concluir, para usar uma frase de Terence McKenna, que a maconha é uma substância capaz de causar intensas reações psicóticas… naqueles que não fumam maconha. Aqueles que nunca tiveram uma experiência com a erva têm a tendência, em sua cabacice ignorante, a demonizá-la e a inventar cruzadas de perseguição a seus usuários e beneficiários. Ninguém me tira da cabeça que os mais empedernidos e autoritários dos proibicionistas, os mais entusiásticos defensores de soluções policialescas e encarceramentos em massa, são os caretas dogmáticos - aqueles que se recusam a experimentar a erva para tirar suas próprias conclusões sobre seus riscos e benefícios e aderem cegamente a seus preconceitos. 
O personagem de Caio Blat, que aparece fumando um baseado em uma dúzia de cenas, é criticado e rechaçado várias vezes por aqueles a seu redor, inclusive seus amigos, por sua adesão demasiado entusiástica à erva. León, por exemplo, lhe presenteia com um exemplar de A História da Loucura, de Foucault, sugerindo que ele se informe sobre os potenciais riscos de enlouquecimento que há no uso demasiado contínuo da ganja. Ora, mas quem é o maior enlouquecido senão essas políticas públicas, enraizadas em preconceitos, baseadas em preceitos militarescos e autoritários, que tratam usuários como criminoso? O que é que enlouquece se não esse sistema que taca o rótulo de traficante sobre aqueles que julga-se com licença para matar?
Como diz o Denis Russo Burgierman:
"só mesmo os utópicos fundamentalistas religiosos podem acreditar em livrar o mundo das drogas. (…) Graças à proibição ultrarradical, atualmente as drogas matam mais, machucam mais e causam mais dano social que em qualquer época da história. Hoje nossa sociedade atribuiu aos drogofóbicos o trabalho de proteger a sociedade das drogas. (…) Precisamos tirar os histéricos do poder, se queremos alguma racionalidade no mundo." (em O Fim da Guerra - leia mais!)
O personagem de Caio Blat (e que interpretação magnífica!) me parece representar uma figura meio outsider, contra-cultural, que abriu demais as portas da consciência para poder engolir ovelhisticamente as mentiras e as ideologias que nos são enfiadas goela abaixo. “Fascinado pelo mistério da morte”, num espírito similar ao de Drauzio Varela em Por um Fio, é um personagem rodeado pelo sofrimento e pelo falecimento que o rodeiam em todos os cantos do hospital. Obviamente, como o doutor Dráuzio, Paulo não crê em Deus, provavelmente pela impossibilidade de conciliar o seu testemunho cotidiano do sofrimento dos inocentes com a idéia de uma divindade justa e misericordiosa. Quando Letícia vem com papinho de crente, ele alfineta a moça: “Você acredita até na novela”.
Proibido Proibir é ousado no retrato de um maconheiro que, rompendo com todos os ópios-do-povo, da religião à novela, abre os olhos para a realidade mais nua-e-crua e estende seus braços em atitude de caridade. Pois a mais grotesca das pretensões dos cristãos é pensar que eles são os “donos” da caridade e têm o “monopólio do coração”, para usar um termo de André Comte-Sponville. A caridade, me parece, independe completamente da fé e não é propriedade privada do Papa ou da Bíblia. Qualquer ateu, agnóstico ou cético é capaz de, movido pela compaixão, comovido pela empatia, despertado para a fraternidade, agir em benefício do outro. E isso sem o egoísmo inconfesso que é ter a esperança de uma recompensa celeste ou o temor de uma punição futura.
Em Proibido Proibir, acompanhamos emocionados a montanha-russa que conduz uma parcela da juventude brasileira que, desperta, consciente e aguerrida, lança-se nas urgências da política. Mas ninguém vai só, até porque o gigantismo e a monstruosidade do sistema é demais para que qualquer indivíduo solitário sinta-se em condições de erguer sem ajuda o outro-mundo-possível. É a própria amizade que marcha para o epicentro do terremoto, para o centro pulsante da guerra, na certeza de que a União, além de açúcar, faz a força.

TRAGÉDIAS TRIVIAIS 
Uma análise de “Proibido Proibir” (Jorge Durán, 2007)
Originalmente publicado no Depredando o Orelhão

Gosto daquela que mandou o Chico. Quando compôs Gota D’Água, peça escrita em parceria com Paulo Pontes, Chiquinho Buarque apostava numa ideia atrevida: transpor para um típico subúrbio carioca a trama de Medéia, clássica tragédia grega de Eurípides. Esta trama, já transposta para o cinema por Lars Von Trier (1988) e Pier Paolo Pasolini (1969), retrata o destino inglório de Medéia ao ser abandonada por seu marido Jasão e que vinga-se matando os dois filhos do casal. Aos que duvidavam dessa transposição da obra para a realidade carioca, Chico costumava responder:

- “E por que não? Acontecem por dia, no Rio, umas cinco tragédias gregas.”

Proibido Proibir (de Jorge Durán), que eu considero um dos grandes filmes brasileiros dos últimos anos, traz à luz uma destas tragédias cariocas tão cotidianas, tão triviais e às vezes tão ausentes dos grandes jornais de tão recorrentes que se tornaram. É verdade que fomos soterrados, nos últimos anos, por histórias deste Rio que não é o do cartão-postal, do Cristo Redentor, do bondinho do Pão de Açúcar: a faceta trash do Rio é ferida exposta nos dois Tropa de Elite, em Cidade de Deus e Cidade dos Homens, Ônibus 174, Notícias de uma Guerra Particular, Complexo Universo Paralelo, Favela Rising… Mas Proibido Proibir prova que ainda há o que dizer - e muito! - sobre as vidas que convivem e se entrechocam nesta grande metrópole latino-americana que se prepara para receber Copa e Olimpíada.

A parte comédia-romântica do filme é adorável por si só - e não só dá-de-10 em qualquer daqueles filmecos roliudianos água-com-açúcar e inofensivos com a Meg Ryan ou a Sandra Bullock, como também contêm um ménage à trois tão bem amarrado, com diálogos tão espertos e situações tão bem construídas, que rivaliza bonito com qualquer pérola do cinema francês, mesmo do Truffaut ou do Eric Rohmer.

Não é aí neste ménage entre Paulo, León e Letícia que se esconde o elemento trágico do filme de Durán. Proibido Proibir não emula Otelo e não contêm perversidades de Iago ou pescocinhos torcidos de Desdêmona. Pelo contrário: é uma celebração da amizade. Paulo (Caio Blat) e León (Alexandre Rodrigues, que encarnou o Buscapé no clássico de Fernando Meirelles) não deixam de ser “irmãos do peito” só porque um é Flamengo e o outro Botafogo, só porque um é médico e o outro sociólogo, só porque um é branquelo e o outro é negão. O problema é: poderá esta amizade sobreviver ao amor pela mesma mulher?

O diretor e roteirista Dúran, chileno radicado no Brasil, comanda o leme deste navio com o pulso firme de um marinheiro experiente nestas águas turbulentas da violência urbana e da juventude pega no centro do turbilhão. Durán é o roteirista de obras clássicas do cinema latino-americano como Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), Pixote, a lei do mais fraco (1981), ambos de Hector Babenco, e Como nascem os anjos (1996), de Murilo Salles. Com um currículo desses, não surpreende que tenha realizado um filme tão bom em Proibido Proibir - cujo título, aliás, evoca tanto o Tropicalismo e a clássica canção de Caetano quanto o Maio de 68 francês e os slogans pixados nos muros de Paris e que conclamavam a juventude a ser realista e exigir o impossível (dentre muitos outros motes).

Apesar de não conter cenas de passeatas ou grandes manifestações de rua, Proibido Proibir está carregado de política. Os três amigos discutem de forma desabrida e sem meias-palavras sobre as problemáticas mais urgentes de seu dia-a-dia - e divergem sobre o quanto as soluções seriam ou não necessariamente políticas. Apesar de seu título, Proibido Proibir versa pouco sobre autoritarismo e ditadura, ao menos numa olhadela de superfície; o filme é muito mais uma reflexão sobre liberdade e libertação, especialmente por dedicar-se inteiramente a acompanhar, cheio de empatia, estes três jovens tão energicamente libertários. León, Paulo e Letícia, por isso, me parecem ser uma espécie de equivalente, no cinema brasileiro, de outros dois trios que marcaram o cinema mundial nos últimos anos: aquele de Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, e aquele que viaja de ácido na Kombi psicodélica em Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee. 

O que realmente arrasta para os pântanos do trágico um enredo que parecia tão propício a um tratamento Sessão da Tarde ou Malhação é o retrato explícito da realidade social dos subúrbios cariocas. Os ingredientes que conduzem à catástrofe são conhecidos: descaso do poder público com educação, moradia e saúde; brutalidade policial mesclada com abuso de poder e racismo; ciclos de ódio e de vendeta que engolfam todos numa espécie de guerra civil não declarada. Os três amigos, quando tentam salvar o menino Cacau de ser assassinado pelos PMs, enredam-se em situações onde a bala perdida é comuníssima e onde quase ninguém aprendeu o evangelho cantado pelo Rappa: “também morre quem atira”.

Sem dúvida que os detratores podem sustentar que Jorge Durán demoniza a figura da polícia militar, que é a verdadeira vilã da história e aparece na tela, mais uma vez, no papel de carrasca. O mínimo que se pode dizer é que este espírito anti-PM no Brasil de Lula e Dilma está bem no ar dos tempos, em sintonia com o zeitgeist, em especial pois ainda temos frescas na memória ocorrências como o massacre do Carandiru e da Candelária, o caso Ônibus 174 e as “intervenções” dos caveirões da Tropa de Elite nos morros do Rio. A desocupação brutal de Pinheirinho, em São José dos Campos, e o modo selvagem com que a PM paulista lidou com o movimento estudantil da USP durante toda a era do reitor Rodas, são outros sinais de uma instituição que têm cometido os abusos mais grotescos e despertado intensas ondas de indignação legítima. Sei que na cabeça de muito brasileiro ainda ressoa o que disse o Capitão Nascimento no encerramento de Tropa de Elite II, em seu pronunciamento no Senado: “a PM do Rio de Janeiro… tem que acabar!” Mas só a do Rio de Janeiro?

É um filme corajoso no modo como confronta os dogmas e os preconceitos. Estes jovens do filme estão longe de seguirem a cartilha Belchior-iana do “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. São uma juventude que se independeu não só da tutela paterno-materna, como também amadureceu na escola da vida de um modo impossível àqueles que quedaram, quietinhos e submissos, obedientes à família, à Deus e à pátria. São jovens que forjam relacionamentos com uma ousadia que não possuem os mais conservadores, os mais apegados a regras ancestrais e costumes sacralizados.

Outra das qualidades do filme é o tratamento dado à cannabis  no enredo. O cinema brasileiro andou produzindo alguns excelentes documentários sobre o assunto nos últimos anos - com destaque para Cortina de Fumaça e Quebrando o Tabu - mas em poucas obras ficcionais um enredo foi tão bem-bolado a fim de colocar em xeque alguns preconceitos e abrir alguns horizontes mais amplos.

Pela primeira vez no cinema nacional, que eu me lembre, a questão da cannabis medicinal é posta em questão: o personagem de Caio Blat, estudante de medicina, retratado como um profissional muito competente no atendimento aos doentes e pródigo em empatia e auxílio emocional, oferece clandestinamente à sua paciente alguns béques que a senhora aceita com os olhos brilhando de júbilo. Ele sabe que, caso a direção do hospital ficasse sabendo, ele estaria enrascado e correria o risco de ser expulso. Mas sabe também, por experiência própria, a magnitude e a variedade dos efeitos terapêuticos da cannabis, conhecidos e empregados pela humanidade, nas mais variadas culturas, há milênios e milênios. 

Que o Brasil ainda esteja empacado numa política de drogas que proíbe radicalmente o uso e o cultivo da cannabis, inclusive para fins medicinais, é mais uma prova do nosso atraso e de nossos conservadorismos irracionais. Muitos pacientes que hoje penam com o câncer, a AIDS ou a depressão, por exemplo, poderiam ter uma qualidade de vida imensamente superior caso adotássemos um sistema semelhante àquele da Califórnia, onde a legalização da cannabis medicinal foi efetivada com pleno sucesso, com imensos efeitos positivos não só para os doentes, como para a própria economia local. 

Proibido Proibir nos convida a concluir, para usar uma frase de Terence McKenna, que a maconha é uma substância capaz de causar intensas reações psicóticas… naqueles que não fumam maconha. Aqueles que nunca tiveram uma experiência com a erva têm a tendência, em sua cabacice ignorante, a demonizá-la e a inventar cruzadas de perseguição a seus usuários e beneficiários. Ninguém me tira da cabeça que os mais empedernidos e autoritários dos proibicionistas, os mais entusiásticos defensores de soluções policialescas e encarceramentos em massa, são os caretas dogmáticos - aqueles que se recusam a experimentar a erva para tirar suas próprias conclusões sobre seus riscos e benefícios e aderem cegamente a seus preconceitos. 

O personagem de Caio Blat, que aparece fumando um baseado em uma dúzia de cenas, é criticado e rechaçado várias vezes por aqueles a seu redor, inclusive seus amigos, por sua adesão demasiado entusiástica à erva. León, por exemplo, lhe presenteia com um exemplar de A História da Loucura, de Foucault, sugerindo que ele se informe sobre os potenciais riscos de enlouquecimento que há no uso demasiado contínuo da ganja. Ora, mas quem é o maior enlouquecido senão essas políticas públicas, enraizadas em preconceitos, baseadas em preceitos militarescos e autoritários, que tratam usuários como criminoso? O que é que enlouquece se não esse sistema que taca o rótulo de traficante sobre aqueles que julga-se com licença para matar?

Como diz o Denis Russo Burgierman:

"só mesmo os utópicos fundamentalistas religiosos podem acreditar em livrar o mundo das drogas. (…) Graças à proibição ultrarradical, atualmente as drogas matam mais, machucam mais e causam mais dano social que em qualquer época da história. Hoje nossa sociedade atribuiu aos drogofóbicos o trabalho de proteger a sociedade das drogas. (…) Precisamos tirar os histéricos do poder, se queremos alguma racionalidade no mundo." (em O Fim da Guerra - leia mais!)

O personagem de Caio Blat (e que interpretação magnífica!) me parece representar uma figura meio outsider, contra-cultural, que abriu demais as portas da consciência para poder engolir ovelhisticamente as mentiras e as ideologias que nos são enfiadas goela abaixo. “Fascinado pelo mistério da morte”, num espírito similar ao de Drauzio Varela em Por um Fio, é um personagem rodeado pelo sofrimento e pelo falecimento que o rodeiam em todos os cantos do hospital. Obviamente, como o doutor Dráuzio, Paulo não crê em Deus, provavelmente pela impossibilidade de conciliar o seu testemunho cotidiano do sofrimento dos inocentes com a idéia de uma divindade justa e misericordiosa. Quando Letícia vem com papinho de crente, ele alfineta a moça: “Você acredita até na novela”.

Proibido Proibir é ousado no retrato de um maconheiro que, rompendo com todos os ópios-do-povo, da religião à novela, abre os olhos para a realidade mais nua-e-crua e estende seus braços em atitude de caridade. Pois a mais grotesca das pretensões dos cristãos é pensar que eles são os “donos” da caridade e têm o “monopólio do coração”, para usar um termo de André Comte-Sponville. A caridade, me parece, independe completamente da fé e não é propriedade privada do Papa ou da Bíblia. Qualquer ateu, agnóstico ou cético é capaz de, movido pela compaixão, comovido pela empatia, despertado para a fraternidade, agir em benefício do outro. E isso sem o egoísmo inconfesso que é ter a esperança de uma recompensa celeste ou o temor de uma punição futura.

Em Proibido Proibir, acompanhamos emocionados a montanha-russa que conduz uma parcela da juventude brasileira que, desperta, consciente e aguerrida, lança-se nas urgências da política. Mas ninguém vai só, até porque o gigantismo e a monstruosidade do sistema é demais para que qualquer indivíduo solitário sinta-se em condições de erguer sem ajuda o outro-mundo-possível. É a própria amizade que marcha para o epicentro do terremoto, para o centro pulsante da guerra, na certeza de que a União, além de açúcar, faz a força.

GUARDIAN.CO.UK:The fight against Brazil’s Pinheirinho eviction can be an inspiration The left has been too slow to criticise the government’s growth-fixated policies. The squatters provide a lesson in resistance
by Rodrigo Nunes [guardian.co.uk, Tuesday 24 January 2012]* * * * *  
The photograph spread around the world fast: it shows residents of the Pinheirinho favela in the state of São Paulo, donning helmets, shields and building barricades to resist an eviction order. Such events are not unusual in Brazil, though this one has attracted international attention.
Pinheirinho has been squatted for eight years, with no government effort to regularise the area or develop an adequate infrastructure. Home to roughly 6,000 people, the land belongs to a notorious financial market fraudster arrested in 2008. Spurred by Brazil’s property development boom, the local administration has recently become active in pursuing the eviction, aided and abetted by judges who seemed to wish to make that happen as quickly as possible.
After that first picture publicised the evictions, the federal government promised to intervene by buying up the land and developing it for the squatters. On those grounds, a federal judge halted the eviction, only to be quickly overruled by another one, who declared it a state matter. The state judiciary then acted fast before the favelados’ lawyers could react.
On Sunday, social networks were buzzing with reports of war-like scenes and tales of brutality, including a media ban and mobile phone block in the area and the rumoured detention of a federal representative and a senator who attempted to intervene (they later clarified they were not detained, but trying to negotiate). As many as seven deaths have been reported, including a baby, though none officially confirmed yet.
It was mostly thanks to social media that information about the evictions could be found. On Twitter, the #Pinheirinho hashtag became a top trending topic for a couple of hours. Throughout the day, Brazil’s corporate media, which has historical ties to the party in power at both state and local level, reported the story in muted tones: headlines highlighted a TV van set on fire while paying less attention to people’s houses in flames.
In places like Iran and Egypt, social media has functioned as a tool against state control of information. In Brazil, it has helped bypass a monolithic private media sector, which is under-regulated and highly concentrated (90% of the industry is in the hands of 15 families). As other means of producing and circulating information became more readily available and a so-called “progressive blogosphere” developed, the country’s corporate media, which gave space for the most aggressive opposition to the Lula and Rousseff administrations, began to lose credibility. The alternative outlets were vociferous in their condemnation of the São Paulo state government last Sunday, and rightly so. But elsewhere on the political left there are hints of double standards.
The larger picture behind the Pinheirinho story is Brazil’s economic boom, in which construction and property are playing a growing role. This process was accelerated by Brazil being chosen as host of the 2014 World Cup and 2016 Olympics. A dossier produced by the National Co-ordination of World Cup Committees estimates that some 170,000 people around the country will be evicted owing to the sporting events (official numbers have never been announced). This ultimately means the state handing public areas – and those occupied by the poor – over to private developers while taxpayers bankroll the whole process. Perhaps the worst case so far has been in Rio, where evictions have been as authoritarian and unilateral as that of Pinheirinho, if not as spectacularly militarised. By comparison, voices on the left have been much slower in denouncing this.
The gargantuan developmentalism that characterises the left-leaning Rousseff government, with its emphasis on economic growth and quantitative indicators rather than participation, environmental protection and wealth redistribution, finds itself in a political impasse. This gigantism brings the government, even as it mobilises old anti-imperialist tropes, closer to big mining, agribusiness and construction interests and further from old allies like Brazil’s landless workers movement.
Many on the left have found it hard to articulate a critique of those processes when they are not carried out by the political right. There are stirrings that suggest this may be changing, such as recent campaigns against Petrobrás (state oil company), Vale do Rio Doce (mining) and the building of the Belo Monte hydroelectric plant. They are small signs, so far still somewhat isolated, but it might be the start of something. If so, Pinheirinho could prove itself to be a lesson, an indictment and an inspiration.

GUARDIAN.CO.UK:

The fight against Brazil’s Pinheirinho eviction can be an inspiration


The left has been too slow to criticise the government’s growth-fixated policies. The squatters provide a lesson in resistance

by Rodrigo Nunes [guardian.co.uk, Tuesday 24 January 2012]

* * * * *  

The photograph spread around the world fast: it shows residents of the Pinheirinho favela in the state of São Paulo, donning helmets, shields and building barricades to resist an eviction order. Such events are not unusual in Brazil, though this one has attracted international attention.

Pinheirinho has been squatted for eight years, with no government effort to regularise the area or develop an adequate infrastructure. Home to roughly 6,000 people, the land belongs to a notorious financial market fraudster arrested in 2008. Spurred by Brazil’s property development boom, the local administration has recently become active in pursuing the eviction, aided and abetted by judges who seemed to wish to make that happen as quickly as possible.

After that first picture publicised the evictions, the federal government promised to intervene by buying up the land and developing it for the squatters. On those grounds, a federal judge halted the eviction, only to be quickly overruled by another one, who declared it a state matter. The state judiciary then acted fast before the favelados’ lawyers could react.

On Sunday, social networks were buzzing with reports of war-like scenes and tales of brutality, including a media ban and mobile phone block in the area and the rumoured detention of a federal representative and a senator who attempted to intervene (they later clarified they were not detained, but trying to negotiate). As many as seven deaths have been reported, including a baby, though none officially confirmed yet.

It was mostly thanks to social media that information about the evictions could be found. On Twitter, the #Pinheirinho hashtag became a top trending topic for a couple of hours. Throughout the day, Brazil’s corporate media, which has historical ties to the party in power at both state and local level, reported the story in muted tones: headlines highlighted a TV van set on fire while paying less attention to people’s houses in flames.

In places like Iran and Egypt, social media has functioned as a tool against state control of information. In Brazil, it has helped bypass a monolithic private media sector, which is under-regulated and highly concentrated (90% of the industry is in the hands of 15 families). As other means of producing and circulating information became more readily available and a so-called “progressive blogosphere” developed, the country’s corporate media, which gave space for the most aggressive opposition to the Lula and Rousseff administrations, began to lose credibility. The alternative outlets were vociferous in their condemnation of the São Paulo state government last Sunday, and rightly so. But elsewhere on the political left there are hints of double standards.

The larger picture behind the Pinheirinho story is Brazil’s economic boom, in which construction and property are playing a growing role. This process was accelerated by Brazil being chosen as host of the 2014 World Cup and 2016 Olympics. A dossier produced by the National Co-ordination of World Cup Committees estimates that some 170,000 people around the country will be evicted owing to the sporting events (official numbers have never been announced). This ultimately means the state handing public areas – and those occupied by the poor – over to private developers while taxpayers bankroll the whole process. Perhaps the worst case so far has been in Rio, where evictions have been as authoritarian and unilateral as that of Pinheirinho, if not as spectacularly militarised. By comparison, voices on the left have been much slower in denouncing this.

The gargantuan developmentalism that characterises the left-leaning Rousseff government, with its emphasis on economic growth and quantitative indicators rather than participation, environmental protection and wealth redistribution, finds itself in a political impasse. This gigantism brings the government, even as it mobilises old anti-imperialist tropes, closer to big mining, agribusiness and construction interests and further from old allies like Brazil’s landless workers movement.

Many on the left have found it hard to articulate a critique of those processes when they are not carried out by the political right. There are stirrings that suggest this may be changing, such as recent campaigns against Petrobrás (state oil company), Vale do Rio Doce (mining) and the building of the Belo Monte hydroelectric plant. They are small signs, so far still somewhat isolated, but it might be the start of something. If so, Pinheirinho could prove itself to be a lesson, an indictment and an inspiration.

Este vídeo revela os jogos de interesses na expulsão dos 9.000 moradores da ocupação Pinheirinho, de 8 anos, em São José dos Campos.