Depredando o Orelhão

SPARTACUS de STANLEY KUBRICK (1960)Da obra de Howard Fast (compre o livro por R$19,90):http://migre.me/dTOCE.Faça o download do filme completo em torrent (1,76 GB): http://migre.me/dTOayCompre o DVD original por R$22,90 na Livraria Cultura:http://migre.me/dTOFSREFLEXÕES SOBRE A CRUZ A PARTIR DE SPARTACUS @ CINEPHILIA COMPULSIVA: http://migre.me/dTOH6Um dos méritos maiores de Spartacus, a história de um homem que lutou pelo fim da escravidão 2.000 anos antes dela ser abolida de fato, está na capacidade do filme de imergir o espectador em um período histórico anterior ao surgimento do Cristianismo, dando-nos vislumbres dos horrores vigentes na realidade sócio-política desta época. No século que antecedeu o nascimento de um certo profeta hebreu de Nazaré, o Império Romano possuía na crucificação seu principal instrumento de pena capital: Jesus, longe de ser uma exceção, padeceu na cruz um destino semelhante ao de milhares de pessoas assassinadas através deste método horrendo pelas elites romanas. Donde a perplexidade que muitos manifestam diante da idolatria católica da cruz, que vista sob uma perspectiva histórica, sem adornos mitológicos, não passa de um instrumento sinistro de tortura e assassinato. É o que Richard Dawkins nota ao sugerir uma comparação insólita: ostentar um crucifixo equivale a andar por aí com uma cadeira-elétrica em miniatura dependurada no corpo. Símbolo sinistro de uma religião fundada no martírio de seu profera, e que não cessou de idolatrar, história afora, um instrumento do suplício, como se convidasse os devotos a imitarem a tortura crística, pregando-se em vida numa cruz ou trotando pela Terra com um fardo auto-imposto sobre o lombo - como aqueles camelos sobrecarregados e miseráveis de que fala Zaratustra…Na época que o filme de Kubrick retrata, onde ainda não havia sido inventado o calendário que rachou a História em um antes e um depois de Cristo, testemunhamos uma luta de classes das mais encarniçadas: de um lado, a aristocracia imperial romana, que tem como divertimento predileto a sanguinolência dos espetáculos de gladiadores, onde dois escravos são obrigados a lutar até que um deles assassine o outro; de outro, uma massa imensa de despossuídos e explorados, coagidos pela força militar e policial do Império ao trabalho extenuante, e alguns deles obrigados a servir de bonecos-de-carne nas grotescas cerimônias digladiantes. Quando Walter Benjamin afirma que “todo monumento da civilização é um monumento da barbárie”, provavelmente se refere, dentre outras coisas, a esta vergonhosa realidade do mundo greco-romano: todas as elevadíssimas e grandiosas conquistas culturais, todas as estátuas lindamente esculpidas e edifícios belamente arquitetados, tinham como base um sistema econômico escravista, defendido desavergonhadamente pelas elites, inclusive pelos filósofos, poetas e literatos da gloriosa Grécia. O próprio Platão era dono de escravos e Aristóteles, preceptor de Alexandre, já inicia seu livro dedicado à Política em um tom escravocrata (e machista) explícito capaz de enojar o leitor contemporâneo…“Alguns seres, ao nascer, se veem destinados a obedecer; outros, a mandar. (…) O macho é mais perfeito e governa; a fêmea o é menos, e obedece. (…) Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo o é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens no qual o emprego da força física é o melhor que deles se obtém. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são destinados, por natureza, à escravidão; porque, para eles, nada é mais fácil do que obedecer. (…) A utilidade dos escravos é mais ou menos a mesma dos animais domésticos: ajudam-nos com sua força física em nossas necessidades cotidianas. (…) O escravo é completamente privado da faculdade de querer; a mulher a tem, mas fraca; a do filho é incompleta…” (ARISTÓTELES, Política, Trad. Nestor Silveira Chaves. Ed. Saraiva de Bolso, Livro I, Capítulo 2 e 4, pgs. 26, 27 e 42).Esta defesa aristotélica da escravidão, que soa tão nauseante a nossos ouvidos, só torna ainda mais significativa a atitude de Spartacus - ele que, se pudesse, decerto cuspiria no rosto do filósofo e lançaria seus livros ao fogo. O levante de escravos, liderado por Spartacus, é uma tentativa desesperada de romper radicalmente com estes grilhões da servidão imposta de cima pela força bruta dos senhores. Após uma rebelião penitenciária, Spartacus e seus asseclas libertam-se da escola de gladiadores onde haviam sido encerrados e partem pelo território italiano, libertando pelo caminho todos os escravos que encontram e pilhando as riquezas dos senhores. Tudo o que querem é atravessar o território da Itália até o mar e fugir para longe da degradante e tenebrosa condição de escravidão. Em uma das cenas mais belas do filme, Spartacus e sua amada Varínia saboreiam com deleite as sensações, para eles frescas e inéditas, da liberdade. Celebram o fato de que agora não estão acorrentados e que ninguém pode comprá-los ou vendê-los. Spartacus estoura numa gargalhada gostosa ao ouvir o relato da fuga de Varínia, que saiu correndo de seu senhor ao notar que ele era pançudinho demais para poder alcançá-la…Deitados na relva, à luz do luar, discutem seus desejos para o futuro, e Spartacus, homem capaz de se enternecer com a poesia e de declarar seus amores com arroubos sentimentais, revela seu intenso desejo de conhecimento. Pois a escravidão é algo que segrega o sujeito de tudo, de todos os direitos, inclusive o privando de acesso ao mundo da cultura, fazendo da possibilidade de educar-se um privilégio das elites. Spartacus, analfabeto cheio de uma sabedoria que não se aprende nos livros, inculto mas sequioso de sapiência, manifesta seu desprezo pela sina de lutador e diz desejar “saber tudo”:
“Who wants to fight? And animal can learn to fight! But to sing beautiful things, and make people believe them…. Hmmm! I’m free. But what do I know? I don’t even know how to read. I know nothing. Nothing! I wanna know. I wanna know everything. Why a star falls and a bird doesn’t. Where the Sun goes at night. Why the Moon changes shape. I wanna know where the wind comes from…”Mas o filme de Kubrick, baseado no livro de Howard Fast e fiel aos fatos históricos, está longe de ser otimista. A força militar das legiões a serviço do Império Romano é brutalmente superior ao exército improvisado que Spartacus lidera. Roma reina pela força, não pelo direito. Roma não conhece o diálogo democrático, a negociação diplomática. Roma não cede em sua posição de senhora absoluta sobre as vidas daqueles que ela se dá o direito de tratar como coisas. O preço que irão pagar aqueles que se insurgiram contra a águia imperial será altíssimo - e o espectador que testemunha a carnificina sai do filme levando uma memória indelével de uma pilha de cadáveres que preenche o campo de batalha…Em sua instigante análise na Genealogia da Moral, Nietzsche avança a tese de que o cristianismo representa um “levante de escravos na moral”. Parece-me bem interessante refletir sobre isso à luz do destino de Spartacus e seus asseclas. Estes, longe de tentarem um levante restrito ao domínio da moralidade, insurgem-se de modo muito mais literal e concreto: querem romper as grades de ferro que os encerram como animais na jaula. Que um elemento de indignação moral se mescle a este intento inssurrecional, não duvido: Spartacus e seus companheiros sentem na pele o quão indigno é a sina que lhes é imposta, o quão horrível é ser tratado como mercadoria, o quão insuportável é trabalhar debaixo do chicote, em jornadas estafantes, para gerar riquezas que serão gozadas pelos outros. O filme de Kubrick é notavelmente materialista, sem nenhuma intervenção divina ou interpretação mitológica: estamos diante de uma luta de classes e as questões de moralidade estão necessariamente conectadas com a realidade econômica e política desta sociedade escravocrata. O cristianismo, na leitura nietzschiana, não é um levante de escravos deste tipo spartacusiano, mas sim um momento na história em que “o ressentimento torna-se criador de valores”. Em outras palavras: as populações que estavam sendo pisoteadas e oprimidas pelo poderio do Império Romano, em sua impotência para reagir e revolucionar a realidade concreta, inverteram a valoração característica da nobreza romana. Esta transvaloração dos valores realizada pela moral judaico-cristã equivale a uma consolação que se oferece aos fracos e oprimidos.Mas notem bem: o cristianismo, ao contrário de Spartacus, não prega que os escravos peguem em armas e se levantem para guerrear contra seus senhores; o cristianismo é uma doutrina que fabrica a noção de Reino dos Céus e promete para um futuro post-mortem uma inversão da hierarquia terrestre. Aqueles que são hoje pisoteados, explorados, feridos, mutilados, depois de morrerem serão recompensados por uma divindade benfazeja. Spartacus, ao invés de se inebriar com a esperança de ser salvo por potências superiores em um futuro distante, toma o seu destino nas próprias mãos no presente - seu levante é concreto. O cristianismo, ao contrário, religião da fé e da esperança, prega a resignação e o fatalismo - carregar a cruz rezando pais-nossos e aves-marias - e adia o dia da redenção para uma suposta transcendência. Ora, para Nietzsche, e decerto que também para Marx, esta transcendência é um embuste, esta recompensa post-mortem uma ilusão e esta fé apenas um ópio. É o que torna o cristianismo uma religião escrava do Imaginário e incapaz de revolucionar a realidade terráquea. Ao invés de quebrar todas as correntes que aprisionam o homem, o cristianismo permite que o homem permaneça acorrentado, ao mesmo tempo que promete para depois a libertação. É o que torna o cristianismo uma religião que idolatra a morte e o que explica seu caráter tão fúnebre e soturno: aqueles que enxergam na morte uma porta que se abre para uma existência venturosa acabam se apaixonando por Tânatos. O desejo passa a se exilar da realidade terrestre e voejar pelos domínios imaginários do “Paraíso”, do “Juízo Final”, da “Redenção”, conceitos que Nietzsche afirma no Anticristo “não terem nenhum ponto de contato com a realidade”. Spartacus explicita que a cruz, na história, é instrumento de tortura e assassinato: por que idolatrar este horror? Se os cristãos puderam transformar este tenebroso instrumento de supliciamento em objeto de culto, talvez isto se deva somente à fé que têm na Ressurreição de Jesus. Eis uma religião que diz a todos os crucificados que, um dia, no além-túmulo, serão recompensados por seus sofrimentos. O que vale a pena questionar, como vêm fazendo por milênios um número infindável de ateus, agnósticos, céticos e livres-pensadores, é se esta dimensão transcendente, este além-túmulo redentor, é de fato uma realidade ou não passa de uma ilusão. É possível que a morte seja uma porta que se fecha, e não um portal que se abre para a glória celeste. É possível que não haja nenhum “fantasminha” imortal chamado “alma” que vá voejar para fora do cadáver que apodrece e subir aos céus. É possível que o cristianismo inteiro esteja construído sobre uma esperança falsa e que, como diz Nietzsche, que “o próprio Deus se revele como a nossa mais longa mentira.” (A Gaia Ciência) O cristianismo, aliás, como sabemos, não soube, não quis ou não pôde abolir a escravidão. Nós, latino-americanos, o sabemos muito bem! Depois de 1.500 anos de cristianismo, nosso continente foi invadido pelos conquistadores da Espanha e de Portugal, monarquias católicas que não tiveram pudores em escravizar milhões de índios e negros, com a desculpa de que não eram gente mas bestas-sem-alma. Em As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano relembra-nos no que se transformou a cruz nesta época:“O ano de 1492 não foi apenas o do descobrimento da América, o novo mundo nascido daquele equívoco de grandiosas consequências (Colombo morreu convencido de que havia alcançado a Ásia pelas costas). Foi também o ano da recuperação de Granada, o último reduto da religião muçulmana em solo espanhol. Esta era uma guerra santa, a guerra cristã contra o Islã, e não é casual, de resto, que no mesmo ano de 1492, 150 mil judeus declarados tenham sido expulsos do país. A Espanha adquiria realidade como nação erguendo espadas cujas empunhaduras traziam o signo da cruz. A rainha Isabel fez-se madrinha da Santa Inquisição. A façanha do descobrimento da América não poderia se explicar sem a tradição militar da guerra das cruzadas que imperava na Castela medieval, e a Igreja não se fez de rogada para atribuir caráter sagrado à conquista de terras incógnitas do outro lado do mar. O papa Alexandre VI converteu a rainha Isabel em dona e senhora do Novo Mundo. A expansão do reino de Castela ampliava o reino de Deus sobre a Terra. Três anos após o descobrimento, Colombo, pessoalmente, comandou uma campanha militar contra os indígenas da Dominicana. Os espanhóis dizimaram os índios. Mais de 500 deles, enviados para a Espanha, foram vendidos como escravos…” (Pg. 30-31)A cruz, que antes de Cristo matou milhares e milhares de pessoas como um instrumento do Império Romano para a pena capital, depois de Cristo vai parar nas empunhaduras das espadas que lutaram nas carnificinas das Cruzadas e que subjugaram o continente que os conquistadores batizariam - em homenagem a um europeu! - de “América”. Encontrando por aqui nativos que nada sabiam sobre o cristianismo, que jamais haviam lido a Bíblia e nunca tinham ouvido falar em Jesus Cristo, os católicos europeus, a partir de 1492, se auto-proclamaram aqueles que estavam destinados por missão divina a livrar estas terras do paganismo e da idolatria, ilustrando os “selvagens” na “verdadeira fé”. Galeano, novamente: “A América era uma vasto império do Diabo, de redenção impossível ou duvidosa, mas a fanática missão contra a heresia dos nativos se confundia com a febre que, nas hostes da conquista, era causada pelo brilho dos tesouros do Novo Mundo. (…) Entre 1503 e 1660, desembarcaram no porto de Sevilha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. A prata levada para a Espanha em pouco mais de um século e meio excedia três vezes o total das reservas europeias. E essas cifras não incluem o contrabando. Com base em dados fornecidos por Alexander von Humboldt, estimou-se em 5 bilhões de dólares atuais a magnitude do excedente econômico evadido do México entre 1760 e 1809, apenas meio século, através das exportações de prata e ouro. Os metais arrebatados aos novos domínios coloniais estimularam o desenvolvimento europeu e até se pode dizer que o tornaram possível… formidável contribuição da América para o progresso alheio. No primeiro tomo de O Capital, Karl Marx escreve: ‘o descobrimento das jazidas de ouro e prata da América, a cruzada de extermínio, a conversão do continente africano em campo de caça aos escravos negros: são todos fatos que assinalam a alvorada da era da produção capitalista.’ O saque foi o meio mais importante de acumulação primitiva de capitais. (…) Essa gigantesca massa de capitais deu um grande impulso à revolução industrial…” (pg. 51)Logo nas primeiras cenas de Spartacus, o narrador nos informa que este escravo rebelde sonhou com o fim da escravidão 2.000 anos antes dela acabar de fato. Seu fracasso não faz com que seu exemplo seja menos comovente, mas sublinha o quão cruel e tenebrosa pode ser a História humana. O cristianismo, surgido no Oriente Médio sob jugo romano algumas décadas depois da crucificação em massa dos escravos spartacusianos em levante, não revolucionou a realidade, mas somente disseminou esperanças de uma transcendência onde os sofrimentos seriam recompensados e onde os cruéis senhores arderiam no Inferno. Esta solução meramente imaginária mostrou toda a sua ineficácia: a escravidão sobreviveu até o século XIX e XX, e muitas vezes praticada pelos próprios cristãos! O que justifica este sentimento visceral de náusea e desgosto que sinto diante de toda e qualquer idolatria da cruz, esta horrenda máquina da morte que, através da História, não foi senão instrumento de genocídio e opressão. Nós, latino-americanos, que por milênios tivemos a sorte de não conhecermos a Cruz e seus idólatras, enfim tivemos a infelicidade de, a partir de 1492, sermos invadidos por estes vândalos europeus, loucos por ouro e famintos por conversões, e que foram capazes de alguns dos crimes mais imensos de que se tem notícia em todo o desenrolar da aventura humana:“A violenta maré de cobiça, horror e bravura não se abateu sobre essas comarcas senão ao preço do genocídio nativo: atribui-se ao México pré-colombiano uma população entre 25 e 30 milhões, e se calcula que havia uma número parecido de índios na região andina; na América Central e nas Antilhas, entre 10 e 13 milhões de habitantes. Os índios das Américas somavam não menos do que 70 milhões, ou talvez mais, quando os conquistadores estrangeiros apareceram no horizonte; um século e meio depois, estavam reduzidos tão só a 3,5 milhões.” (GALEANO: pg. 64)* * * * *Por Eduardo Carli de MoraesContato: educmoraes@hotmail.comBlogs: Cinephilia CompulsivaA Casa de VidroDepredando o Orelhão

SPARTACUS de STANLEY KUBRICK (1960)

Da obra de Howard Fast (compre o livro por R$19,90):http://migre.me/dTOCE.

Faça o download do filme completo em torrent (1,76 GB): http://migre.me/dTOay

Compre o DVD original por R$22,90 na Livraria Cultura:http://migre.me/dTOFS

REFLEXÕES SOBRE A CRUZ A PARTIR DE SPARTACUS @ CINEPHILIA COMPULSIVA: http://migre.me/dTOH6

Um dos méritos maiores de Spartacus, a história de um homem que lutou pelo fim da escravidão 2.000 anos antes dela ser abolida de fato, está na capacidade do filme de imergir o espectador em um período histórico anterior ao surgimento do Cristianismo, dando-nos vislumbres dos horrores vigentes na realidade sócio-política desta época. 

No século que antecedeu o nascimento de um certo profeta hebreu de Nazaré, o Império Romano possuía na crucificação seu principal instrumento de pena capital: Jesus, longe de ser uma exceção, padeceu na cruz um destino semelhante ao de milhares de pessoas assassinadas através deste método horrendo pelas elites romanas. Donde a perplexidade que muitos manifestam diante da idolatria católica da cruz, que vista sob uma perspectiva histórica, sem adornos mitológicos, não passa de um instrumento sinistro de tortura e assassinato. 

É o que Richard Dawkins nota ao sugerir uma comparação insólita: ostentar um crucifixo equivale a andar por aí com uma cadeira-elétrica em miniatura dependurada no corpo. Símbolo sinistro de uma religião fundada no martírio de seu profera, e que não cessou de idolatrar, história afora, um instrumento do suplício, como se convidasse os devotos a imitarem a tortura crística, pregando-se em vida numa cruz ou trotando pela Terra com um fardo auto-imposto sobre o lombo - como aqueles camelos sobrecarregados e miseráveis de que fala Zaratustra…

Na época que o filme de Kubrick retrata, onde ainda não havia sido inventado o calendário que rachou a História em um antes e um depois de Cristo, testemunhamos uma luta de classes das mais encarniçadas: de um lado, a aristocracia imperial romana, que tem como divertimento predileto a sanguinolência dos espetáculos de gladiadores, onde dois escravos são obrigados a lutar até que um deles assassine o outro; de outro, uma massa imensa de despossuídos e explorados, coagidos pela força militar e policial do Império ao trabalho extenuante, e alguns deles obrigados a servir de bonecos-de-carne nas grotescas cerimônias digladiantes. 

Quando Walter Benjamin afirma que “todo monumento da civilização é um monumento da barbárie”, provavelmente se refere, dentre outras coisas, a esta vergonhosa realidade do mundo greco-romano: todas as elevadíssimas e grandiosas conquistas culturais, todas as estátuas lindamente esculpidas e edifícios belamente arquitetados, tinham como base um sistema econômico escravista, defendido desavergonhadamente pelas elites, inclusive pelos filósofos, poetas e literatos da gloriosa Grécia. O próprio Platão era dono de escravos e Aristóteles, preceptor de Alexandre, já inicia seu livro dedicado à Política em um tom escravocrata (e machista) explícito capaz de enojar o leitor contemporâneo…

“Alguns seres, ao nascer, se veem destinados a obedecer; outros, a mandar. (…) O macho é mais perfeito e governa; a fêmea o é menos, e obedece. (…) Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo o é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens no qual o emprego da força física é o melhor que deles se obtém. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são destinados, por natureza, à escravidão; porque, para eles, nada é mais fácil do que obedecer. (…) A utilidade dos escravos é mais ou menos a mesma dos animais domésticos: ajudam-nos com sua força física em nossas necessidades cotidianas. (…) O escravo é completamente privado da faculdade de querer; a mulher a tem, mas fraca; a do filho é incompleta…” (ARISTÓTELES, Política, Trad. Nestor Silveira Chaves. Ed. Saraiva de Bolso, Livro I, Capítulo 2 e 4, pgs. 26, 27 e 42).

Esta defesa aristotélica da escravidão, que soa tão nauseante a nossos ouvidos, só torna ainda mais significativa a atitude de Spartacus - ele que, se pudesse, decerto cuspiria no rosto do filósofo e lançaria seus livros ao fogo. O levante de escravos, liderado por Spartacus, é uma tentativa desesperada de romper radicalmente com estes grilhões da servidão imposta de cima pela força bruta dos senhores. Após uma rebelião penitenciária, Spartacus e seus asseclas libertam-se da escola de gladiadores onde haviam sido encerrados e partem pelo território italiano, libertando pelo caminho todos os escravos que encontram e pilhando as riquezas dos senhores. Tudo o que querem é atravessar o território da Itália até o mar e fugir para longe da degradante e tenebrosa condição de escravidão. 

Em uma das cenas mais belas do filme, Spartacus e sua amada Varínia saboreiam com deleite as sensações, para eles frescas e inéditas, da liberdade. Celebram o fato de que agora não estão acorrentados e que ninguém pode comprá-los ou vendê-los. Spartacus estoura numa gargalhada gostosa ao ouvir o relato da fuga de Varínia, que saiu correndo de seu senhor ao notar que ele era pançudinho demais para poder alcançá-la…

Deitados na relva, à luz do luar, discutem seus desejos para o futuro, e Spartacus, homem capaz de se enternecer com a poesia e de declarar seus amores com arroubos sentimentais, revela seu intenso desejo de conhecimento. Pois a escravidão é algo que segrega o sujeito de tudo, de todos os direitos, inclusive o privando de acesso ao mundo da cultura, fazendo da possibilidade de educar-se um privilégio das elites. Spartacus, analfabeto cheio de uma sabedoria que não se aprende nos livros, inculto mas sequioso de sapiência, manifesta seu desprezo pela sina de lutador e diz desejar “saber tudo”:

“Who wants to fight? And animal can learn to fight! But to sing beautiful things, and make people believe them…. Hmmm! I’m free. But what do I know? I don’t even know how to read. I know nothing. Nothing! I wanna know. I wanna know everything. Why a star falls and a bird doesn’t. Where the Sun goes at night. Why the Moon changes shape. I wanna know where the wind comes from…”

Mas o filme de Kubrick, baseado no livro de Howard Fast e fiel aos fatos históricos, está longe de ser otimista. A força militar das legiões a serviço do Império Romano é brutalmente superior ao exército improvisado que Spartacus lidera. Roma reina pela força, não pelo direito. Roma não conhece o diálogo democrático, a negociação diplomática. Roma não cede em sua posição de senhora absoluta sobre as vidas daqueles que ela se dá o direito de tratar como coisas. O preço que irão pagar aqueles que se insurgiram contra a águia imperial será altíssimo - e o espectador que testemunha a carnificina sai do filme levando uma memória indelével de uma pilha de cadáveres que preenche o campo de batalha…

Em sua instigante análise na Genealogia da Moral, Nietzsche avança a tese de que o cristianismo representa um “levante de escravos na moral”. Parece-me bem interessante refletir sobre isso à luz do destino de Spartacus e seus asseclas. Estes, longe de tentarem um levante restrito ao domínio da moralidade, insurgem-se de modo muito mais literal e concreto: querem romper as grades de ferro que os encerram como animais na jaula. Que um elemento de indignação moral se mescle a este intento inssurrecional, não duvido: Spartacus e seus companheiros sentem na pele o quão indigno é a sina que lhes é imposta, o quão horrível é ser tratado como mercadoria, o quão insuportável é trabalhar debaixo do chicote, em jornadas estafantes, para gerar riquezas que serão gozadas pelos outros. 

O filme de Kubrick é notavelmente materialista, sem nenhuma intervenção divina ou interpretação mitológica: estamos diante de uma luta de classes e as questões de moralidade estão necessariamente conectadas com a realidade econômica e política desta sociedade escravocrata. O cristianismo, na leitura nietzschiana, não é um levante de escravos deste tipo spartacusiano, mas sim um momento na história em que “o ressentimento torna-se criador de valores”. Em outras palavras: as populações que estavam sendo pisoteadas e oprimidas pelo poderio do Império Romano, em sua impotência para reagir e revolucionar a realidade concreta, inverteram a valoração característica da nobreza romana. Esta transvaloração dos valores realizada pela moral judaico-cristã equivale a uma consolação que se oferece aos fracos e oprimidos.

Mas notem bem: o cristianismo, ao contrário de Spartacus, não prega que os escravos peguem em armas e se levantem para guerrear contra seus senhores; o cristianismo é uma doutrina que fabrica a noção de Reino dos Céus e promete para um futuro post-mortem uma inversão da hierarquia terrestre. Aqueles que são hoje pisoteados, explorados, feridos, mutilados, depois de morrerem serão recompensados por uma divindade benfazeja. Spartacus, ao invés de se inebriar com a esperança de ser salvo por potências superiores em um futuro distante, toma o seu destino nas próprias mãos no presente - seu levante é concreto. O cristianismo, ao contrário, religião da fé e da esperança, prega a resignação e o fatalismo - carregar a cruz rezando pais-nossos e aves-marias - e adia o dia da redenção para uma suposta transcendência. Ora, para Nietzsche, e decerto que também para Marx, esta transcendência é um embuste, esta recompensa post-mortem uma ilusão e esta fé apenas um ópio. 

É o que torna o cristianismo uma religião escrava do Imaginário e incapaz de revolucionar a realidade terráquea. Ao invés de quebrar todas as correntes que aprisionam o homem, o cristianismo permite que o homem permaneça acorrentado, ao mesmo tempo que promete para depois a libertação. É o que torna o cristianismo uma religião que idolatra a morte e o que explica seu caráter tão fúnebre e soturno: aqueles que enxergam na morte uma porta que se abre para uma existência venturosa acabam se apaixonando por Tânatos. O desejo passa a se exilar da realidade terrestre e voejar pelos domínios imaginários do “Paraíso”, do “Juízo Final”, da “Redenção”, conceitos que Nietzsche afirma no Anticristo “não terem nenhum ponto de contato com a realidade”. 

Spartacus explicita que a cruz, na história, é instrumento de tortura e assassinato: por que idolatrar este horror? Se os cristãos puderam transformar este tenebroso instrumento de supliciamento em objeto de culto, talvez isto se deva somente à fé que têm na Ressurreição de Jesus. Eis uma religião que diz a todos os crucificados que, um dia, no além-túmulo, serão recompensados por seus sofrimentos. 

O que vale a pena questionar, como vêm fazendo por milênios um número infindável de ateus, agnósticos, céticos e livres-pensadores, é se esta dimensão transcendente, este além-túmulo redentor, é de fato uma realidade ou não passa de uma ilusão. É possível que a morte seja uma porta que se fecha, e não um portal que se abre para a glória celeste. É possível que não haja nenhum “fantasminha” imortal chamado “alma” que vá voejar para fora do cadáver que apodrece e subir aos céus. É possível que o cristianismo inteiro esteja construído sobre uma esperança falsa e que, como diz Nietzsche, que “o próprio Deus se revele como a nossa mais longa mentira.” (A Gaia Ciência) 

O cristianismo, aliás, como sabemos, não soube, não quis ou não pôde abolir a escravidão. Nós, latino-americanos, o sabemos muito bem! Depois de 1.500 anos de cristianismo, nosso continente foi invadido pelos conquistadores da Espanha e de Portugal, monarquias católicas que não tiveram pudores em escravizar milhões de índios e negros, com a desculpa de que não eram gente mas bestas-sem-alma. Em As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano relembra-nos no que se transformou a cruz nesta época:

“O ano de 1492 não foi apenas o do descobrimento da América, o novo mundo nascido daquele equívoco de grandiosas consequências (Colombo morreu convencido de que havia alcançado a Ásia pelas costas). Foi também o ano da recuperação de Granada, o último reduto da religião muçulmana em solo espanhol. Esta era uma guerra santa, a guerra cristã contra o Islã, e não é casual, de resto, que no mesmo ano de 1492, 150 mil judeus declarados tenham sido expulsos do país. A Espanha adquiria realidade como nação erguendo espadas cujas empunhaduras traziam o signo da cruz. 

A rainha Isabel fez-se madrinha da Santa Inquisição. A façanha do descobrimento da América não poderia se explicar sem a tradição militar da guerra das cruzadas que imperava na Castela medieval, e a Igreja não se fez de rogada para atribuir caráter sagrado à conquista de terras incógnitas do outro lado do mar. O papa Alexandre VI converteu a rainha Isabel em dona e senhora do Novo Mundo. A expansão do reino de Castela ampliava o reino de Deus sobre a Terra. Três anos após o descobrimento, Colombo, pessoalmente, comandou uma campanha militar contra os indígenas da Dominicana. Os espanhóis dizimaram os índios. Mais de 500 deles, enviados para a Espanha, foram vendidos como escravos…” (Pg. 30-31)

A cruz, que antes de Cristo matou milhares e milhares de pessoas como um instrumento do Império Romano para a pena capital, depois de Cristo vai parar nas empunhaduras das espadas que lutaram nas carnificinas das Cruzadas e que subjugaram o continente que os conquistadores batizariam - em homenagem a um europeu! - de “América”. Encontrando por aqui nativos que nada sabiam sobre o cristianismo, que jamais haviam lido a Bíblia e nunca tinham ouvido falar em Jesus Cristo, os católicos europeus, a partir de 1492, se auto-proclamaram aqueles que estavam destinados por missão divina a livrar estas terras do paganismo e da idolatria, ilustrando os “selvagens” na “verdadeira fé”. Galeano, novamente: 

“A América era uma vasto império do Diabo, de redenção impossível ou duvidosa, mas a fanática missão contra a heresia dos nativos se confundia com a febre que, nas hostes da conquista, era causada pelo brilho dos tesouros do Novo Mundo. (…) Entre 1503 e 1660, desembarcaram no porto de Sevilha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. A prata levada para a Espanha em pouco mais de um século e meio excedia três vezes o total das reservas europeias. E essas cifras não incluem o contrabando. Com base em dados fornecidos por Alexander von Humboldt, estimou-se em 5 bilhões de dólares atuais a magnitude do excedente econômico evadido do México entre 1760 e 1809, apenas meio século, através das exportações de prata e ouro. Os metais arrebatados aos novos domínios coloniais estimularam o desenvolvimento europeu e até se pode dizer que o tornaram possível… formidável contribuição da América para o progresso alheio. No primeiro tomo de O Capital, Karl Marx escreve: ‘o descobrimento das jazidas de ouro e prata da América, a cruzada de extermínio, a conversão do continente africano em campo de caça aos escravos negros: são todos fatos que assinalam a alvorada da era da produção capitalista.’ O saque foi o meio mais importante de acumulação primitiva de capitais. (…) Essa gigantesca massa de capitais deu um grande impulso à revolução industrial…” (pg. 51)

Logo nas primeiras cenas de Spartacus, o narrador nos informa que este escravo rebelde sonhou com o fim da escravidão 2.000 anos antes dela acabar de fato. Seu fracasso não faz com que seu exemplo seja menos comovente, mas sublinha o quão cruel e tenebrosa pode ser a História humana. O cristianismo, surgido no Oriente Médio sob jugo romano algumas décadas depois da crucificação em massa dos escravos spartacusianos em levante, não revolucionou a realidade, mas somente disseminou esperanças de uma transcendência onde os sofrimentos seriam recompensados e onde os cruéis senhores arderiam no Inferno. 

Esta solução meramente imaginária mostrou toda a sua ineficácia: a escravidão sobreviveu até o século XIX e XX, e muitas vezes praticada pelos próprios cristãos! O que justifica este sentimento visceral de náusea e desgosto que sinto diante de toda e qualquer idolatria da cruz, esta horrenda máquina da morte que, através da História, não foi senão instrumento de genocídio e opressão. Nós, latino-americanos, que por milênios tivemos a sorte de não conhecermos a Cruz e seus idólatras, enfim tivemos a infelicidade de, a partir de 1492, sermos invadidos por estes vândalos europeus, loucos por ouro e famintos por conversões, e que foram capazes de alguns dos crimes mais imensos de que se tem notícia em todo o desenrolar da aventura humana:

“A violenta maré de cobiça, horror e bravura não se abateu sobre essas comarcas senão ao preço do genocídio nativo: atribui-se ao México pré-colombiano uma população entre 25 e 30 milhões, e se calcula que havia uma número parecido de índios na região andina; na América Central e nas Antilhas, entre 10 e 13 milhões de habitantes. Os índios das Américas somavam não menos do que 70 milhões, ou talvez mais, quando os conquistadores estrangeiros apareceram no horizonte; um século e meio depois, estavam reduzidos tão só a 3,5 milhões.” (GALEANO: pg. 64)

* * * * *

Por Eduardo Carli de Moraes
Contato: educmoraes@hotmail.com
Blogs: Cinephilia Compulsiva
A Casa de Vidro
Depredando o Orelhão




Maravilhosa iniciativa esta do Cine Revolución! Filmes excelentes em forma e conteúdo, inteirinhos na rede, pra ver on-line via Vimeo. Entre os destaques, a filmografia completa do cineasta pernambucano Cláudio Assis (Amarelo Manga, Baixio das Bestas e Febre do Rato), o novíssimo western-spaghetti sangue-no-zóio de Tarantino (Django Unchained), além de alguns clássicos subestimados do passado como Queimada!, filme de Gillo Pontecorvo estrelado por Marlon Brando. Confiram o blog… a cine-revolução é agora!Já quem prefere dar um mergulho na realidade através de algum bom documentário, o Cine Revolucion também tem a solução! No link aí atrás, saiba mais sobre Stanley Kubrick, Jimi Hendrix, Federico Fellini, Vinícius de Moraes, Lars Von Trier, Bertold Brecht, Novos Baianos, Revolução Cubana - e muito mais. Grande diversidade e qualidade de material! Cole lá e esbalde-se sem moderação!Favorite-os!http://cine.larevolucionesahora.comhttp://documenta.larevolucionesahora.comhttp://www.facebook.com/larevolucionesahorafilmes

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Galera: Cinephilia Compulsiva é o novo nome de meu velho blog dedicado a assuntos e pitacos cinematográficos. Ele vem para substituir o “Esteticoscopio”, que nunca grudou nem engrenou. Estão todos convidados a dar um pulo lá e conferir! http://www.cinephiliacompulsiva.blogspot.com/Dentre as últimas atrações… “Tropicalia”, de Marcelo Machado; “Febre do Rato”, de Claudio Assis; “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha; “É Proibido Proibir”, de Jorge Durán; todos os filmes dos BEATLES para assistir on-line; “Poesia”, de Lee Chang Dong; “Labirinto do Fauno”, de Guillermo del Toro; “Dawson - A Ilha Secreta de Pinochet”… e por aí vai!Em breve, crítica de “Django Unchained”, o novo do Tarantino. Fiquem ligados!

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http://www.cinephiliacompulsiva.blogspot.com/

Dentre as últimas atrações… “Tropicalia”, de Marcelo Machado; “Febre do Rato”, de Claudio Assis; “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha; “É Proibido Proibir”, de Jorge Durán; todos os filmes dos BEATLES para assistir on-line; “Poesia”, de Lee Chang Dong; “Labirinto do Fauno”, de Guillermo del Toro; “Dawson - A Ilha Secreta de Pinochet”… e por aí vai!

Em breve, crítica de “Django Unchained”, o novo do Tarantino. Fiquem ligados!


Stanley Kubrick no set de Lolita

Stanley Kubrick no set de Lolita

Stanley Kubrick e Malcolm McDowell juntos no set de Laranja Mecânica

2001: A Space Odyssey (MGM, 1968)

“Behind every man now alive stand thirty ghosts, for that is the ratio by which the dead outnumber the living. Since the dawn of time, roughly a hundred billion human beings have walked the planet Earth. 

Now this is an interesting number, for by a curious coincidence there are approximately a hundred billion stars in our local universe, the Milky Way. So for every man who has ever lived, in this Universe there shines a star. 

But every one of those stars is a sun, often far more brilliant and glorious than the small, nearby star we call the Sun. And many—perhaps most—of those alien suns have planets circling them. So almost certainly there is enough land in the sky to give every member of the human species, back to the first ape-man, his own private, world-sized heaven—or hell. 


How many of those potential heavens and hells are now inhabited, and by what manner of creatures, we have no way of guessing; the very nearest is a million times farther away than Mars or Venus, those still remote goals of the next generation. But the barriers of distance are crumbling; one day we shall meet our equals, or our masters, among the stars. 

Men have been slow to face this prospect; some still hope that it may never become reality. Increasing numbers, however are asking; ‘Why have such meetings not occurred already, since we ourselves are about to venture into space?’ 

Why not, indeed? Here is one possible answer to that very reasonable question. But please remember: this is only a work of fiction. 

The truth, as always, will be far stranger.” 

― Arthur C. Clarke2001: A Space Odyssey